         Em Nome do Amor

Barbara Cartland


    Ttulo Original - Look With Love.




     Coleo Barbara Cartland n 164

Resumo


       Quem seria a jovem misteriosa que viera morar no Castelo?

       O rosto do Marqus se aproximou perigosamente, fazendo com que Ilita tremesse de excitao.
       Ele a puxou para seus braos e, antes que ela pudesse perceber o que acontecia, ou mesmo antes que pudesse tomar flego, seus lbios se uniram aos do Marqus.
       Agora, Ilita teria de assumir sua verdadeira identidade.
       E, fazendo isso, teria que deix-lo!


     Digitalizao - Dores Cunha
     Correo - Edith Suli
     Visto Final - Ana Maria




       
       
    NOTA DA AUTORA
    
       O homem, vivendo atarefado na era da mecanizao, perdeu de vista a f que sempre orientou os povos primitivos.
       Quem viveu entre os nativos, na frica, ndia ou em outras partes isoladas do mundo, compreendeu que esses nativos conseguem realizar verdadeiros milagres 
porque acreditam no poder da mente e em seus deuses.
       Mas nem mesmo um feiticeiro, na frica, pode evitar que uma pessoa morra se essa pessoa j ps em sua mente que morrer. Os vodus da Amrica do Sul podem 
ensinar muitas coisas extraordinrias queles que se dispuserem a ouvi-los.
       Os soldados que serviram na ndia no tempo do domnio ingls foram testemunhas de que muitos indianos tinham o poder de saber que um parente havia morrido, 
estando a centenas de quilmetros de distncia.
       O que esses povos usam  seu instinto, ou o que os egpcios chamam de "terceiro olho". 
       Muito do que chamamos de "clarividncia"  apenas o instinto que todos ns temos e que, se desenvolvido e usado corretamente, pode nos servir de inspirao 
e proteo.
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO I
       
      1886
      
       Assim que o trem entrou na Estao Victoria, em Londres, soltando fumaa e vapor, Ilita teve um sbito impulso de se agarrar a irm Anglica, mas este pensamento 
pareceu-lhe ridculo. No convento, jamais gostara da irm Anglica, a encarregada da lavanderia, cuja funo era ensinar s garotas as tarefas mais enfadonhas, como 
costurar, remendar e cerzir.
       Naquele momento, porm, o rosto da irm, marcado pelo tempo, pelo menos era familiar. Ilita no fazia idia do que reservava o futuro, a no ser o vazio do 
desconhecido.
       "Se papai estivesse aqui, seria maravilhoso voltar  Inglaterra", pensou a jovem tristemente.
       Sua companheira de viagem, a filha do Embaixador da Itlia junto  Corte de St. James, achava-se de p ao lado da janela, e comeou a gritar,
       - J vi mame! Ela est ali na plataforma! Oh, irm Anglica, por favor, desa o vidro da janela!
       - Farei isso quando for o momento, minha criana - replicou a irm  - Sua me veio at aqui para encontr-la, pode ficar tranquila que a encontrar.
       A garota italiana no ouviu o que a religiosa disse.
       Ilita pensava com tristeza que nenhum parente viria receb-la, e sim algum dos empregados da tia. Parecia impossvel que, ao voltar ao seu pas, a nica parente 
que Ilita iria ver seria uma tia, que vira apenas uma vez e que dera a impresso de ser uma pessoa desagradvel, que no gostava dela nem de seu pai.
       "Talvez ela fique contente ao vme er agora", dizia a si mesma, tentando levantar o moral. Seu instinto, porm, dizia que isso era improvvel.
       Durante toda a viagem de trem, de Florena at a Inglaterra, Ilita pensou no que havia acontecido com ela e imaginou como tudo seria diferente se o destino 
no tivesse sido to cruel, abatendo-a daquele modo devastador.
       Agora, poderia estar indo para Darrington Park, onde iria morar com o pai.
       No entanto, seu pai estava morto.
       Parecia incrvel, mas o irmo caula do pai de Ilita, que o sucedera como sexto Conde de Darrington, morrera tambm h poucos meses, e restava apenas seu 
filho, um adolescente ainda, para continuar a tradio familiar.
       Jamais passara pela cabea de Marcus Darrington-Coombe, o pai de Ilita, que herdaria a imensa casa em Buckinghamshire e o condado, dos quais a famlia sempre 
havia sido extremamente orgulhosa.
       Dos trs filhos do Conde de Darrington, Marcus era o segundo. com a morte do Conde, o ttulo passaria para o filho mais velho. Assim, Marcus decidiu que viveria 
com a pequena renda que o pai dava e iria explorar o mundo.
       Casou-se com uma jovem que tambm gostava de aventuras, juntos, escalaram  montanhas, estiveram na sia e em lugares exticos nem registrados em mapas, navegaram 
rios infestados de crocodilos e atravessaram desertos desconhecidos, sempre com o otimismo de exploradores amadores que no conheciam o significado da palavra "impossvel".
       Quando Ilita nasceu, no foi um empecilho para a vida de aventuras de seus pais. Estes simplesmente a levavam para onde quer que fossem.
       O bebe era carregado em uma cesta. Ora adormecia com o balano, na corcova de um camelo, ora era levado montanha acima, em um cesto amarrado no lombo de um 
iaque, desde cedo aprendera a subsistir com alimentos estranhos, que poderiam matar outras crianas.
       O que faltava  pequena famlia em dinheiro, sobrava em felicidade e divertimento. Ilita podia lembrar-se de sua infncia como um perodo radiante, cheio 
de riso, alegria e amor.
       Entretanto, h trs anos, quando Ilita contava quinze anos, o desastre aconteceu.
       Retornando por mar, de uma viagem  frica, os trs desembarcaram em Npoles. Os pais de Ilita foram atacados por uma estranha febre, desconhecida dos mdicos.
       A me de Ilita morreu subitamente. Para o marido e a filha, a vida parecia insuportvel. Dos dois, foi Ilita a mais forte, ela forou o pai a comer e foi, 
gradualmente, fazendo-o interessar-se pelo que acontecia ao seu redor, as escavaes de Pompia e a descoberta de uma linda villa romana, em Capri.
       Por amor  filha, Marcus voltou aos poucos  sua vida normal, apesar de fraco e abatido. 
       Foi ento que a madrinha de Ilita, a Senhora Van Holden, apareceu subitamente.
       A Senhora Van Holden fora uma grande amiga da me de Ilita, e, sabendo que a afilhada e o pai estavam em Npoles, viera de Roma, onde se encontrava, para 
dizer como sentia a perda da amiga.
       - Eu adorava Elizabeth - dissera ela com os olhos rasos de lgrimas  - No nos vamos com frequncia, depois que me casei com um americano. No posso imaginar 
que ela j no esteja neste mundo que a sua presena tornava mais belo.
       Ao sentar com a afilhada e o compadre em um banco no jardim mal cuidado do hotel barato onde eles se haviam hospedado, ela falou sobre o tempo em que ela 
e Elizabeth, ambas da mesma idade, haviam sido apresentadas no Palcio de Buckingham. Ambas pensavam que iriam conquistar o mundo, pois eram jovens e felizes.
       - Sua av, Ilita, tinha certeza absoluta de que Elizabeth iria fazer um timo casamento, pois era linda. Eu costumava rir e dizia que ela poderia ter uma 
fila de Prncipes, Duques e Marqueses da aristocracia britnica a seus ps. Sabe o que aconteceu?
       Mesmo sabendo a resposta, Ilita perguntou,
       - O que aconteceu, madrinha?
       - Sua me viu seu pai em um baile e ficou perdidamente apaixonada por ele! Depois disso, se Reis ou o prprio X da Prsia casse de joelhos aos ps dela, 
declarando seu amor, ela simplesmente o ignoraria!
       - E eu no estava menos apaixonado por ela - disse o pai de Ilita numa voz cheia de dor.
       - Eu tambm logo me apaixonei - disse a Senhora Van Holden em seguida, no querendo continuar com aquelas lembranas que tornavam os seus amigos infelizes 
- Mas a minha famlia ficou horrorizada, porque o homem por quem me apaixonara era americano! Ele era adido na Embaixada americana, em Londres. Depois que nos casamos, 
fomos morar nos Estados Unidos. S posso dizer, com toda a honestidade, que temos sido muito felizes.
       Depois de uma pequena pausa, ela continuou,
       - Infelizmente, no tivemos filhos.
       - Sinto muito por vocs - disse o pai de Ilita.
       
       - Sempre senti muita falta de crianas - respondeu a Senhora Van Holden - e  por isso que gostaria de conversar seriamente com voc a respeito de minha afilhada, 
Marcus.
       Ilita olhou surpresa para a madrinha, que continuou,
       - Suponho que j tenha percebido que sua filha vai ser to linda como Elizabeth, Marcus. Acho que ser muito importante que, antes de fazer seu debut na Inglaterra, 
ela seja mandada para uma boa escola de refinamento social, para moas.
       - No sei aonde quer chegar! - exclamou o pai de Ilita, no escondendo o seu espanto  - Nunca pensei em Ilita como uma debutante convencional.
       - Pois saiba que  muito egosmo de sua parte no desejar isso para sua filha! - disse a Senhora Van Holden  -  claro que Ilita deve ter as mesmas chances 
que Elizabeth e eu tivemos. Mesmo que ela no goste de bailes e recepes, nem do esplendor da sociedade londrina, que considero fascinante, deve pelo menos ver 
os dois tipos de vida, no futuro saber escolher o que preferir.
       - Quero ficar com papai! - disse Ilita depressa.
       - E eu quero minha filha ao meu lado - disse Marcus, passando o brao ao redor dos ombros da filha.
       - Voc j a teve ao seu lado durante quase dezesseis anos. J  hora de pensar em sua filha como uma moa e no como uma criana, meu querido amigo. Lembre-se 
de que um dia ela ser esposa e me.
       Ilita sentiu que o brao do pai a apertava como se quisesse proteg-la.
       Eles conversaram e discutiram sobre o futuro de Ilita durante a tarde toda. A conversa continuou ainda durante o jantar que a Senhora Van Holden ofereceu 
aos amigos, no maior e mais luxuoso hotel de Npoles, onde ela se hospedava.
       Embora tivesse viajado muito com seu pai, Ilita raramente via o interior dos hotis luxuosos, onde no podiam hospedar-se por no terem dinheiro suficiente. 
Na verdade, ela sentia-se muito mais  vontade em uma tenda erguida s pressas em algum osis ou em uma casa pobre, numa obscura aldeia na ndia.
       Ilita olhou ao redor e notou que, comparada  Senhora Van Holden e s outras pessoas que jantavam naquele restaurante, estava muito mal vestida. Mesmo seu 
pai, apesar de ser um homem bonito e estar usando traje de noite, noparecia  vontade cercado de tantos Cavalheiros elegantes.
       - Estive analisando a situao, Marcus - disse a Senhora Van Holden depois do jantar  - Queria dar um bom presente para minha afilhada, e no o ofereci antes 
porque no sabia em que parte do mundo vocs estavam nos dois ltimos aniversrios dela ou no Natal. Decidi oferecer a ela um curso de um ano e meio na mais renomada 
e mais importante escola de freiras, em um convento em Florena.
       Ilita ouviu tudo contendo a custo sua ansiedade e a madrinha continuou,
       - J obtive informaes seguras por meio da Embaixada americana na Itlia e de alguns italianos. Todos foram unnimes em recomendar o Convento de Sta. Sophia, 
o mais elegante e mais famoso colgio para moas de toda a Europa.
       - Oh, por favor! - gritou Ilita  - No quero ir para um colgio!
       - Tenho certeza de que  justamente de um bom colgio que voc precisa no momento - replicou a madrinha com certa severidade.
       Depois, com um sorriso nos lbios, continuou,
       - Sei que a convivncia com sua me, que era muito culta, j foi uma bela educao, e, naturalmente, viajando por tantos pases, voc deve ter aprendido algumas 
lnguas. Mas h outras coisas que uma jovem Lady precisa saber, e  por isso que as jovens da aristocracia, sejam elas francesas, italianas ou inglesas, fazem, em 
geral, mais de um ano em uma escola de refinamento social. A, ento, saem de seus casulos, como borboletas, para um mundo fascinante!
       Ilita teve vontade de rir ao ver o modo como a madrinha se expressava. A Senhora Van Holden prosseguiu,
       - Asseguro minha querida, que voc se transformar na mais linda borboleta, e ser muito aclamada e cortejada quando aparecer em sociedade. Como sua me j 
no se encontra entre ns, quando voc for apresentada no Palcio de Buckingham, eu virei da Amrica e providenciarei tudo para que tenha um baile maravilhoso, como 
nunca se viu em  Londres. Ser inesquecvel!
       Um pouco assustada, Ilita estendeu a mo por baixo da mesa, segurou a mo do pai, apertando-a, e olhou para ele numa expresso silenciosa, suplicando para 
que no concordasse com os planos da madrinha.
       Reconhecia, porm, que o pai, justamente por am-la e por querer para ela o melhor que pudesse ter no mundo, iria concordar com a Senhora Van Holden.   Afinal, 
o que a madrinha propunha era muito sensato, alm de ser com certeza, o que Elizabeth teria desejado para a filha.
       O que aconteceu depois foi to rpido que Ilita mal teve tempo de pensar. 
       Ela se viu subitamente no convento, em Florena, com um enxoval novo e completo comprado pela madrinha, e embora tentasse agarrar-se ao pai, ele deixou-a.
       - Para onde vai, papai? - ela perguntara.
       - Recebi um convite para participar de umas escavaes na Turquia.
       - Oh, papai, deixe-me ir com voc! - ela suplicou.
       - Quando terminar seus estudos, prometo que a levarei comigo.
       - Mas no vai partir sem me dizer adeus, vai?
       - No, claro que no! - ele respondera  - Ainda vai demorar um ms ou dois at que tudo esteja pronto. Eu virei me despedir de voc antes de partirmos. E, 
claro, vou deixar o lugar exato onde poder me encontrar ou entrar em contato comigo em caso de urgncia.
       Ilita ficou calada. No pensava que iria acontecer alguma coisa, mas seria uma agonia saber que o pai estaria to distante dela.
       O que a preocupava era que, durante essas viagens exploratrias, era quase impossvel a seu pai comunicar-se com o mundo exterior.
       Quando o pai veio v-la, antes de partir para a Turquia, as notcias que trouxe eram bem diferentes das que ela esperava.
       Assim que o viu, soube que algo estava errado, pois conhecia cada expresso daquele rosto. Antes mesmo de ele comear a falar, ela perguntou,
       - O que aconteceu, papai? H alguma coisa errada?
       - Por que pergunta, minha filha?
       - Sinto que alguma coisa no est bem.
       - No h propriamente nada errado - disse ele, sentando num sof duro, na sala da madre superiora, no convento.
       - Ento, por que est aborrecido?
       Um sorriso iluminou o rosto de Marcus, tornando-o ainda mais bonito.
       
       - Voc sempre sabe o que estou sentindo, exatamente como sua me. De fato, estou aborrecido porque aconteceu algo que eu jamais pensei que pudesse acontecer. 
Tenho que decidir se parto ou volto para a Inglaterra.
       - Para a Inglaterra, papai? 
       Seu pai assentiu com a cabea.
       - Soube esta manh, por um mensageiro enviado especialmenteda Inglaterra para me encontrar, que seu av morreu na semana passada.
       Ilita ouvia, espantada.
       Mesmo no podendo lembrar do av, que no via h muitos anos, seu pai sempre falava nele, e ela sabia que ele no aprovava a vida que o segundo filho levava.
       - Est muito triste com a morte do vov, papai?
       - Nunca pensei que ele fosse morrer to cedo. Afinal, ele mal completara sessenta anos, e sempre aparentou ser muito forte. Eu achava que ainda fosse viver 
muitos anos.
       - Ento est pensando em voltar para ir ao funeral?
       - Seu av j foi sepultado, minha filha. Infelizmente, no me encontraram a tempo para me dar a notcia da morte dele. Preciso ir  Inglaterra porque agora 
sou o novo Conde de Darrington.
       Ilita olhou para o pai, de olhos arregalados.
       - Mas... e seu irmo, tio Lionel?
       - Lionel morreu no Sudo h nove meses. A morte de Lionel deve ter ocorrido quando estvamos muito longe, sem comunicao. Era muito comum ficarmos meses 
sem saber ao menos as notcias dos jornais. At esta manh eu no tinha a menor idia de que seu tio havia morrido.
       Percebendo o quanto o pai estava triste, Ilita segurou a mo.
       - Oh, sinto muito, papai.
       - Sabe, filha, sinto desesperadamente a morte de Lionel, pois sei que ele teria sido um excelente chefe de nossa famlia e, para o reino, teria sido um par 
muito melhor do que eu.
       
       - Isso no  verdade - disse Ilita, sorrindo  - Lembro-me de que mame dizia que a nica coisa que lamentava era no v-lo usando uma coroazinha, e que voc 
seria o mais bonito de todos na Cmara dos Lordes.
       - A verdade, Ilita,  que no fui feito para a vida de pompas e cerimnias que um aristocrata ingls deve levar. Sei que vou me sentir tolhido mesmo nos enormes 
sales da Manso Darrington, os vastos acres que formam nossa propriedade me faro sentir saudades dos horizontes distantes e dos picos cobertos de neve das montanhas 
no conquistadas. 
       Ilita ouvia com ateno, e o pai continuou,
       - Sei exatamente o que todos diro, que  meu dever, minha responsabilidade assumir a direo do condado, e que essa  a vida que Deus escolheu para mim. 
Tudo bem! Tenho que aceitar tudo isso!
       Num tom de voz decidido, ele prosseguiu,
       - Mas juro que no desistirei da minha viagem. Vai ser muito excitante, e ser a ltima. Depois me tornarei o esteio da famlia, cheio de respeitabilidade, 
e serei, sem dvida, um pomposo chato.
       O riso espontneo de Ilita ressoou na sala. O pai acabou por rir tambm, e a irritao desapareceu de seus olhos.
       - Est me achando dramtico demais, no, filha? Tem toda a razo, minha querida.  exatamente o que estou sendo.
       Ele levantou do sof e comeou a caminhar pela austera sala, sem decorao nenhuma, a no ser um crucifixo sobre a escrivaninha da madre superiora.
       Por um momento Marcus ficou em silncio, e Ilita disse de maneira suplicante,
       - Por favor, papai, leve-me com voc. Sei que pretende ir at a Turquia, conforme planejou. Seria to maravilhoso se pudssemos estar juntos!
       O pai olhou para ela e quase cedeu.
       - Isso  o que mais quero no mundo, filha querida, mas sei que sua madrinha estava certa quando insistiu em que voc viesse para este convento. Assim como 
devo assumir as minhas responsabilidades no futuro, voc tem que assumir as suas.
       - Prometo que vou tentar, papai - disse Ilita  - S acho que, se voc pode adiar um pouco essas responsabilidades, eu tambm poderia fazer o mesmo.
       - No  assim to fcil - replicou ele  - Sabe muito bem que seria um erro interromper sua educao por seis meses. O que prometo  que, quando terminar seu 
curso aqui no convento, antes de tornar uma "borboleta social", como sua madrinha est planejando, ns dois iremos viajar sozinhos para algum lugar onde ningum 
nos achar, e descobriremos algo to surpreendente, to diferente e indito que o mundo inteiro nos aclamar!
       - Meu nico desejo  ficar a seu lado, papai.
       - Esse  o meu desejo tambm. Comearemos a nossa viagem assim que voc terminar seu curso e receber todos os prmios por ser a aluna mais brilhante e mais 
aplicada de todas as que j passaram por aqui.
       Ilita riu, mas sentia o corao apertado ao ver que o pai iria mesmo partir sem ela.
       Nessa noite, chorou muito, at que, vencida pelo cansao, conseguiu dormir. Durante semanas seguidas foi a mesma coisa.
       No servia de consolao saber que agora era Lady Ilita Darrington-Coombe, e que recebia das colegas um tratamento muito melhor do que anteriormente.
       Trs meses mais tarde, quando recebeu a notcia de que seu pai havia morrido em uma erupo vulcnica, Ilita soube que a agonia que sofrera ao separar do 
pai j era um pressentimento de que ele jamais voltaria daquela expedio.
       Lembrava que, ao despedir-se dele, agarrar com fora ao seu pescoo, com a estranha sensao de que o perderia e de que no estariam juntos no futuro.
       - No se esquea de sua promessa de que iremos fazer uma viagem juntos assim que eu deixar este convento - repetira ela diversas vezes.
       Era impossvel pensar que o pai estava morto. Ele sempre fora um homem forte e cheio de energia. Tinha um magnetismo pessoal extraordinrio e sabia comunicar-se 
com todos.
       O sofrimento de Ilita era um pouco amenizado quando ela era obrigada a concentrar em seu trabalho e pensava, como no tempo em que a me havia morrido, que 
o pai estava ali ao lado dela. Embora no pudesse explicar como, sentia que se comunicava com ele.
        noite, deitava e ficava pensando no pai, at ver o rosto dele desenhado na escurido, diante dela. Ele ento ria daquele seu modo irresistvel. Tudo se 
iluminava e ela o ouvia dizer, "Olhe para diante, no para trs! "
       " isso o que tenho a fazer", pensava Ilita.
       Havia recebido uma carta do irmo mais novo do pai, agora o sexto Conde de Darrington.
       Era uma carta fria, na qual o tio lamentava profundamente a morte do irmo, mas estava feliz em saber que a sobrinha estava sendo bem cuidada em uma escola 
excepcional, e que, se precisasse de alguma coisa, por favor entrasse em contato com ele.
       O tio no mencionava ansiedade em v-la, e Ilita imaginava se, ao terminar o curso, iria ou no morar com o tio e a tia Sybil.
       Tinha certeza de que o tio no gostaria de t-la com eles. O que a animava era pensar que a madrinha ficaria com ela em Londres quando estivesse na idade 
de debutar. Como a Senhora Van Holden no tinha filhos, talvez a levasse consigo quando voltasse para a Amrica.
       "Isso seria emocionante!", pensou Ilita, sentando para escrever uma carta para a madrinha, contando o que havia acontecido.
       Levou muito tempo at que a carta de Ilita cruzasse o Atlntico. A Senhora Van Holden ficou, naturalmente, consternada com a notcia da morte do pai de Ilita, 
e, apesar de no mencionar nada a respeito do ttulo de Conde que ele havia recebido, devia estar muito feliz em saber que a afilhada era agora muito mais importante 
na escala social.
       Desde que chegara ao convento, Ilita havia escrito  madrinha todos os meses, contando o que fazia e como estava seu relacionamento com as colegas e religiosas.
       Era natural que o fizesse uma vez que a madrinha pagava por seus estudos, deveria ficar a par do progresso da afilhada.
       A Senhora Van Holden havia respondido a todas as cartas que Ilita escrevera at h seis meses. Depois houve um longo silncio. Ilita escreveu perguntando, 
ansiosa, o que estava acontecendo, se a madrinha estivera viajando.
       Finalmente, recebeu uma carta da secretria da Senhora Van Holden, informando que esta havia enviuvado recentemente e sentia-se profundamente deprimida, alm 
de no estar bem de sade.
       A secretria pedia que Ilita continuasse escrevendo e dizia tambm que a madrinha enviava todo o seu amor.
       Ilita continuou a escrever. Agora o fazia semanalmente, apesar de no ter muita coisa interessante para dizer a uma pessoa que morava do outro lado do mundo.
       Nos dois meses que se seguiram, recebeu apenas duas cartas breves, escritas pela prpria Senhora Van Holden em caligrafia muito tremida.
       "Estou melhorando", dizia ela, ", claro, tento restabelecer-me completamente para poder viajar para a Inglaterra e receb-la quando voc deixar o convento. 
J dei instrues para que me arranjem uma bela casa que eu possa alugar para a temporada, assim poderei organizar o baile que prometi. Tambm escrevi a sua tia, 
a nova Condessa, perguntando se ela deseja apresentar voc no Palcio de Buckingham. 
       Tudo parecia muito excitante. Porm, um ms mais tarde, Ilita recebeu uma carta da tia. Certamente havia sido ditada a uma secretria, e era breve, fria, 
com aspecto de carta comercial.   A tia informava que acabava de saber que a Senhora Van Holden havia falecido, na Virgnia.
       "Tudo havia sido planejado", continuava a carta, "para que voc ficasse em Londres com a Senhora Van Holden. Entretanto, recebi tambm da madre superiora 
do convento uma carta comunicando que no final do semestre voc termina o curso nesse colgio, e vai ser mandada para Londres.
        Quero que venha para a Manso Darrington, e ento ficar a par do que foi decidido sobre seu futuro.  No se comunique com nenhum outro membro da famlia 
antes de me procurar. Serei informada da sua chegada, e uma carruagem estar  sua espera na Estao Victoria. Por favor, siga as instrues contidas nesta carta. 
Atenciosamente,
       Sybil Darrington. "
       Ilita leu a carta diversas vezes, achando estranho que a tia escrevesse de maneira to formal.
       Lembrava-se de que, quando soubera da morte do tio, ocorrida dois meses antes, escrevera uma carta de psames  tia, mas no recebera resposta. Esse fato 
no a surpreendeu, pois quase no tinha contato com a famlia de seu pai.
       Recordava-se vagamente da tia. A lembrana que guardava dela era a de uma mulher linda, de voz extremamente rspida. Seu pai no gostava da cunhada.
       - Tia Sybil  linda! - dissera Ilita.
       - Uma serpente tambm  bonita quando voc no v a lngua! - respondera o pai, e os dois tinham rido bastante.
       S de pensar em encontrar-se com a tia, Ilita estremeceu. O trem parou por completo, e a garota italiana, pulando e gritando de alegria, saltou para a plataforma 
e correu para os braos da me.
       Ilita e a irm ficaram sozinhas na cabina.
       - Obrigada, irm, por tomar conta de mim - disse a jovem em sua voz suave  - Foi uma longa viagem, e se tiver que voltar imediatamente, ficar cansada demais.
       - No se preocupe comigo - respondeu a irm  - Quero que se cuide bem, minha querida. No se esquea de fazer suas oraes, e confie em Deus, que sempre olhar 
por voc.
       - Espero que sim.
       Como se soubesse o que Ilita estava sentindo, a irm Anglica, 
       inesperadamente, ps a mo em seu ombro, dizendo,
       - Voc trabalhou muito, minha querida. Todos ns temos que carregar nossa cruz. Mas confie em Deus e reze que Sua luz a guiar.
       No esperando aquele carinho de irm Anglica, Ilita olhou para ela, surpresa, e agradeceu, com um leve tremor na voz,
       - Muito obrigada, irm.
       - No me esquecerei de voc em minhas oraes - disse a irm com um sorriso  - No tenha medo de nada.
       Um carregador cuidou da bagagem de Ilita, e quando todos os bas estavam empilhados no carrinho, ela o seguiu.
       Entre as carruagens que esperavam fora da estao, ela logo viu uma com o braso de Darrington pintado na porta.
       Um Senhor de cabelos grisalhos esperava por ela, apresentando-se como secretrio da Condessa.
       - No fui esper-la na plataforma, pois poderamos nos desencontrar. Alis, recebi instrues de sua tia para esper-la aqui, em frente  carruagem.
       - Estou muito contente por ter vindo receber-me. S receio ter muita bagagem.
       Os poucos vestidos que trouxera no eram apropriados para uma cidade como Londres. O resto da bagagem era constitudo de muitos livros e souvenirs de Florena, 
dos quais no quis de forma alguma se separar.
       A Senhora Van Holden sempre fora muito generosa. 
       No apenas pagara as mensalidades do colgio, mas mandara sempre dinheiro extra, com o qual Ilita comprava livros, quadros e artigos tipicamente florentinos.
       Teria sido impossvel resistir s sedas maravilhosas, pintadas a mo por grandes mestres, ou s pequenas peas de coral todas entalhadas que se viam nas lojas 
do Ponte Vecchio.
       As colegas de Ilita achavam que ela deveria comprar roupas ou um chapu novo, mas ela ria e dizia que no se importava em andar fora de moda.
       As pequeninas peas que comprava constituam seu tesouro, e cada uma delas trazia lembranas agradveis.
       O mesmo acontecia com os poucos objetos que haviam pertencido  me. 
       Mesmo tendo pouco valor material, tinham muito valor afetivo.
       Seus bas foram empilhados na parte de trs da carruagem, e as caixas foram colocadas no banco.
       - Poderiame  dizer o seu nome? - perguntou Ilita polidamente ao secretrio.
       - Shepherd - respondeu ele  - Trabalho na Manso Darrington h muitos anos. Na verdade, comecei a trabalhar para seu av, e esperava trabalhar para seu pai, 
caso ele no tivesse morrido to prematuramente.
       - Tenho certeza de que papai ficaria muito feliz em contar com a suaajuda e experincia. Certamente acharia muito estranho possuir duas manses enormes, depois 
de ter passado anos sem saber onde iria dormir na noite seguinte! 
       O Senhor Shepherd sorriu.
       - Duas? Na verdade, Milady, o Conde de Darrington possui vinte propriedades em diferentes partes do pas.
       Ilita ficou boquiaberta.
       - Tantas assim?
       - Tambm acho que so muitas. Mantenho todas em ordem para o jovem Conde de Darrington, que tem apenas treze anos.
       - No me recordo desse meu primo.
       
       - Ele  um rapazinho muito bonito - disse o Senhor Shepherd - mas lamento dizer que ele no foi beneficiado por uma bela educao como a sua, Milady. Se me 
permite diz-lo, fiquei muito bem impressionado quando li a carta que a madre superiora mandou a sua tia, enumerando todos os seus cursos, as habilitaes e os prmios 
que recebeu.
       Ilita teve vontade de perguntar se a tia tambm ficara impressionada, mas a timidez a impediu de faz-lo.
       No demorou muito tempo para que os dois cavalos de raa os levassem da estao at Park Lane.
       Ilita teve vontade de olhar pela janela e lembrar dos lugares que j havia visto antes, o verde do Hyde Park e as belas casas em frente ao parque, que pertenciam 
aos mais importantes membros da aristocracia.
       Porm, preferiu no olhar nada. Sentia-se amedrontada e nervosa com o que iria acontecer em seguida. No a abandonava o pressentimento de que o encontro com 
a tia seria muito desagradvel e que no iria gostar dos planos que a Condessa fizera para seu futuro.
       No mesmo instante, dizia para si mesma que estava sendo ridcula. Se a tia no a quisesse, e isso era perfeitamente compreensvel, haveria certamente muitos 
outros parentes que a receberiam de bom grado, em considerao a seu pai, apesar de ele ter ficado tanto tempo afastado dos tios e primos aos quais sempre se referia 
como o cl dos Darrington-Coombe.
       - Eles so todos inchados de orgulho - dissera o pai certa vez  - Pensam que seu sangue azul lhes confere o direito de olhar para os outros com ar superior. 
Posso assegurar, minha querida, que me sinto melhor em companhia de um xeque rabe ou de um faquir indiano do que com nossos parentes. Eles ficam o tempo todo se 
vangloriando de sua importncia. Tenho certeza de que, quando os conhecer, vai ter a mesma opinio.
       Pensando no pai, Ilita agora compreendia melhor do que nunca por que ele amava a liberdade. Na verdade, sempre parecera um garoto desobediente que gostava 
de cabular aulas por amar demais o sentimento de independncia e por querer fazer exatamente o que agradava, e no o que parecia to importante para seu av e todas 
as geraes dos DarringtonCoombe que o haviam antecedido.
       Mas o pai era homem, e podia aventurar-se sem correr tantos riscos. Uma mulher no poderia fazer o mesmo. Subitamente, Ilita sentiu-se muito pequena na enorme 
cidade de Londres. Tudo era assustador e estranho, e ela sentiu-se s, to s como nunca se sentira em toda a sua vida.
       "Ajude-me, papai!", ela suplicou do fundo do corao, silenciosamente, enquanto a carruagem parava em frente a uma grande porta com um prtico.
       - Aqui estamos, Milady - disse o Senhor Shepherd em tom alegre, como  querer dar-lhe coragem e saltando primeiro para ajud-la a descer.
       - Obrigada por ter ido buscar-me - disse Ilita, ansiosa.
       - Foi um prazer. Pode subir, que sua tia j est  sua espera.
       Ilita entrou na casa vagarosamente. Atravessou o hall de piso de mrmore onde a esperavam quatro lacaios, com seus uniformes de listras azuis, colete amarelo 
botes onde se via, impresso, o escudo de Darrington.
       Um homem, usando um longo casaco que dava a aparncia de um bispo, veio ao encontro dela, caminhando lentamente.
       - Boa tarde, Milady. Seja bem vinda  Inglaterra! Espero que a viagem no tenha sido muito cansativa.
       - Este  Bateson - explicou o Senhor Shepherd, que seguia ao lado de Ilita  - Ele j est com a famlia Darrington h muitos anos.   Conhecia seu pai muito 
bem.
       - Sim, Milady - disse Bateson  - A morte de seu pai causou-nos muito pesar.
       - Obrigada.
       Bateson voltou-se e comeou a subir as escadas.
       Ilita entendeu que devia segui-lo.
       Ele subia devagar, como se aquele exerccio fosse penoso, e ela percebeu que ele j era bem idoso.
       Chegaram a um patamar e seguiram por um longo corredor que levava  sute principal da Manso, a qual dava para a parte lateral do jardim.
       Ilita lembrava vagamente daquela casa, pois, quando havia estado ali, era ainda muito pequena. Viera com os pais dizer adeus ao av, antes de partirem para 
o Oriente.
       Lembrava tambm de que, nessa ocasio, o av havia ficado extremamente zangado, dizendo que o filho desperdiava seu tempo vagando pelo mundo, em vez de fixar-se 
na Inglaterra e interessar-se pela poltica.
       - Essa vida me aborrece - respondera o pai de maneira desafiadora e agressiva.
       - Qualquer cidado com uma posio como a sua deve se interessar pelo governo do pas - dissera o av ponderadamente.
       Entretanto, seu pai no mudara de idia, e os trs partiram para o Ceilo na manh seguinte, viajando numa cabina sem conforto, num navio de segunda categoria, 
porque no podiam pagar passagens em navios melhores. 
       Todavia, adoraram a viagem e tambm a terra aonde chegaram.
       O mordomo acabava de abrir a alta porta de mogno, e Ilita voltou ao presente. com voz forte, Bateson anunciou,
       - Lady Ilita Darrington-Coombe acaba de chegar, Milady!
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO II
       
       Por um momento tudo pareceu girar diante dos olhos de Ilita.
       Ela fixou o olhar e pode ver, apesar de ofuscada pelo sol que entrava pela janela, que a tia estava sentada elegantemente em uma chaise longue, no fundo do 
quarto.
       - Boa tarde, tia Sybil. Muito obrigada por mandar a carruagem ir me buscar na estao.
       Por um momento fez-se silncio. Depois, olhando para a sobrinha de maneira quase hostil, a tia disse, em voz rspida,
       - Sente-se. Preciso falar-lhe.
       Ilita obedeceu, sentando na beirada de uma poltrona que havia ao lado da chaise longue. Notou que a tia era linda e se vestia de acordo com a ltima moda.
       Pela primeira vez, desde que deixara o convento, percebeu que o vestido que usava era o de uma menina de colgio, nada apropriado para uma cidade elegante 
como Londres.
       Achara, entretanto, que seria um absurdo gastar o dinheiro que possua comprando vestidos em Florena, se ia para Londres, onde usaria roupas bem diferentes.
       Acreditava que a tia providenciaria roupas adequadas, como fazia sua madrinha, quando era viva. Agora, diante daquela mulher que a analisava detalhadamente, 
achou que devia ter escolhido um vestido um pouco mais elegante.
       A tia devia estar achando que suas roupas, muito usadas, no condiziam com o luxo daquela casa.
       No mesmo tom rspido, a Condessa comeou a falar,
       - No sei se j pensou no que deve fazer, agora que sua madrinha morreu. No h a menor chance de voc ser apresentada  sociedade, como ela havia planejado.
       Ilita no sabia o que responder, e ficou calada. A tia continuou,
       - Eu esperava, claro, que a Senhora Van Holden, sendo uma mulher muito rica, pagasse por tudo o que fosse necessrio, inclusive roupas e o baile que iria 
oferecer. Estava planejado tambm que voc ficaria hospedada com ela enquanto estivesse em Londres.
       
       - Fiquei muito triste com a morte de minha madrinha disse Ilita  - Como a Senhora sabe, ela foi muito boa para mim.
       - Sei disso. Era muito boa mesmo! Entretanto, agora que no tem mais sua madrinha, tem pelo menos sua educao. Seus estudos iro ser muito teis para garantir 
seu futuro.
       - Eu pensei que...  - disse Ilita, de maneira hesitante  - Aonde acha que eu devo morar?
       - Em qualquer lugar, menos aqui! No tenho a menor inteno de me sobrecarregar cuidando de pessoa alguma da famlia Darrington-Coombe, nem de ser responsvel, 
na minha idade, por algum to jovem como voc que precisa de uma chaperon.
       Ilita percebeu que a tia realmente no gostava dela.
       - Talvez, tia Sybil - arriscou a dizer, com cuidado - algum outro parente... alguma outra pessoa da famlia de papai... gostasse que eu fosse morar com eles.
       - Se h algum que queira receb-la, ignoro quem seja. Voc no pode esperar que algum parente queira que uma jovem sem vintm seja jogada s costas, ainda 
mais em se tratando da filha de Marcus. Seu pai s cuidava da prpria vida, no queria saber da famlia, e at criou inimizades com a maioria dos parentes!
       - Ento... Se no h pessoa alguma a quem possa recorrer, para onde irei?
       -  exatamente sobre isso que vamos conversar. E pode estar certa de que pensei muito sobre o assunto antes de chegar a esta deciso.
       Depois de uma pausa para pesar cuidadosamente cada palavra, ela prosseguiu,
       - Haveria muitos comentrios desagradveis e poderia at sair alguma nota nos jornais se voc comeasse a sair sem algum para acompanh-la. Eu diria at 
que voc poderia arranjar problemas de um tipo ou de outro.
       Ilita quis protestar, mas a tia no deu ocasio.
       - Alis, seu pai s causou problemas para toda famlia, e sempre houve muitos comentrios maldosos sobre ele, no passado. No vai querer dar motivos para 
mais comentrios ainda.
       - Jamais pensei em tal coisa - disse Ilita, humildemente - Por favor, tia Sybil, diga-me se papai me deixou algum dinheiro.
       - Dinheiro? Claro que no! Voc deve saber muito bem que ele sempre viveu da generosidade de seu av, apesar de este sempre ter desaprovado com veemncia 
o modo como o filho desperdiava seu dinheiro, perambulando pelo mundo, sem responsabilidade, sem se preocupar em se estabelecer com a famlia.
       - Papai sempre viveu muito feliz com suas exploraes - disse Ilita, achando que devia defender o pai.
       - Tenho certeza disso - disse a Condessa com sarcasmo.
       - Mas, por causa desse modo de vida, voc agora  um estorvo em minha vida, e no tem um centavo!
       O modo como ela falou fez com que Ilita cerrasse os punhos, controlando-se para no dar uma resposta malcriada, o que de nada adiantaria e deixaria a Condessa 
mais irritada do que j estava.
       - Tenho certeza - ela conseguiu dizer com humildade - de que papai no tinha a inteno de deixar-me... sem meios de subsistncia.
       - Entretanto, foi exatamente o que aconteceu! Pelo que sei, no h nada no banco em nome dele, e quando falei pela ltima vez com os advogados da famlia, 
eles verificaram cuidadosamente e me disseram que nem testamento ele fez.
       No havia o que dizer. Depois de um momento, Ilita perguntou,
       - O que quer... que eu faa, tia Sybil?
       - Como j disse, pensei bastante sobre a sua situao, e a princpio achei que, como j havia vivido em um convento, a melhor soluo talvez fosse voc abraar 
a vida religiosa, tornando-se freira.
       Ilita ficou quase paralisada, sem conseguir articular uma palavra. Depois disse, numa voz aguda que ecoou pelas quatro paredes do quarto,
       - Mas... tia Sybil... eu no poderia fazer isso! No quero ser freira... No tenho vocao para a vida religiosa!
       - A questo no  o que voc quer ou deixa de querer. Antes de prosseguirmos, gostaria de deixar bem claro que, como seu pai est morto e seu tio tambm, 
eu sou sua tutora, at que meu filho, Anthony, atinja a maioridade. Portanto, voc tem que fazer o que eu mandar. Essa  a lei!
       - Mas eu no quero ser freira! - Ilita gritou.
       - Compreendo que haver dificuldades, uma vez que voc no  catlica - admitiu a Condessa  - Mas est decidido que voc ter que ganhar a vida, de um modo 
ou de outro. Portanto, vou arranjar um servio, e espero que voc seja competente.
       Ilita prendeu a respirao e apertou as mos com tanta fora que as unhas se enterraram na palma da mo.
       No pelas palavras, mas pelo modo como a Condessa falava, Ilita adivinhou que a tia iria sentenci-la a uma vida horrvel, da qual no poderia fugir.
       A Condessa ficou calada por alguns segundos, e Ilita perguntou timidamente,
       - Poderia me dizer tia Sybil... o que planejou para mim?
       - Certamente no foi fcil descobrir um lugar, na Inglaterra, onde voc pudesse ficar sem ser um aborrecimento para mim e onde sua identidade no fosse descoberta 
facilmente.
       - Minha identidade?
       - No espera, criana tola, que eu queira que todos saibam que a sobrinha de meu marido, Lady Ilita Darrington-Coombe, tenha que trabalhar para ganhar seu 
sustento! Tambm no quero que fiquem dizendo que eu deva t-la sob minha responsabilidade.
       - Ento... o que me prope?
       - Foi por mero acaso que descobri que uma das minhas amigas, a Marquesa de Lyss, est cega h nove meses. Ela era uma mulher belssima, e, revoltada com o 
que aconteceu, vive em completa recluso. No quer saber da companhia de ningum, nem quer que sintam piedade dela.
       A Condessa no parecia lamentar o infortnio da amiga, e falava sobre o que acontecera com indiferena.
       - Escrevi  Marquesa - prosseguiu a Condessa - sugerindo que ela empregasse uma pessoa que pudesse ler para ela, de modo que a ajudaria a manter-se atualizada 
a respeito do que acontece no mundo.
       - Ler para uma... cega? - disse Ilita num sussurro.
       - Disse  Marquesa que eu mesma j a empreguei, e no quero que me desminta. Assegurei que voc  uma tima pessoa, e, na verdade, posso dar as melhores referncias.
       - No compreendo - disse Ilita, desconsolada  - vou ter que viver com essa... Marquesa... e apenas ler para ela?  um emprego sobre o qual nunca ouvi falar.
       - No me admiro. Voc morou durante muito tempo em lugares selvagens, e seu pai com certeza associou-se a pessoas que no deviam estar acostumadas a ter nenhum 
tipo de criado, muito menos criados com certo refinamento.
       Revoltada, Ilita no respondeu, limitando-se a perguntar,
       - Acha que eu deveria apenas ler livros e jornais para sua amiga?
       - Se ela for uma pessoa de bom senso, achar inmeras coisas para mant-la ocupada. Naturalmente, como qualquer pessoa do mundo, ela deve dar muito valor 
ao dinheiro. Em minha carta de recomendao, mencionarei que voc costura muito bem. Sempre soube que ensinam costura e bordado com perfeio nos conventos. Tenho 
certeza de que essa habilidade vai render muito mais financeiramente do que as outras atividades que deram grandes prmios no seu curso, mas que para o mercado de 
trabalho nada valem.
       - Tudo o que aprendi no convento procurei fazer com perfeio, para contentar minha madrinha.
       - Bem, ela est morta. O que importa  que voc vai ter que arranjar um emprego. No conte comigo para nada, a no ser para escrever essa carta de recomendao, 
conforme prometi.
       - Nunca pensei em tal coisa - disse Ilita mais para si mesma do que para a Condessa.
       - Ento, quanto antes comear a pensar, melhor - disse a tia  - Como j lhe disse, de agora em diante vai ter que contar consigo mesma. Portanto, aprenda 
a tirar o mximo de cada oportunidade, e agradea a Deus sempre que elas se apresentarem.
       Enquanto falava, a Condessa analisava a sobrinha, e seu olhar endureceu.
       Ilita estava linda. O sol batia em seu rosto, tornando-a ainda mais jovem. Seus olhos, conforme a claridade, tinham reflexos cinzentos ou cor de violeta, 
e os longos clios escuros, com as pontas douradas, combinavam com o reflexo dourado dos cabelos, que caam soltos debaixo do chapeuzinho simples. Aqueles olhos 
assustados davam a Ilita um ar quase infantil.
       Ela parecia frgil e quase imaterial, todavia, sua juventude e beleza eram to marcantes, que a Condessa foi obrigada a reconhecer que perdera esse tipo de 
riqueza h muitos anos.
       Esse simples pensamento a irritou, e ela disse,
       - Pelo menos a Marquesa no vai poder v-la, e no vai ficar irritada como estou agora, por ter que aguentar esse ridculo rosto de criana que voc tem! 
Trate de crescer e sair  luta. Quanto antes fizer isso, melhor!
       - Por que disse que no poderei usar... meu prprio nome, tia Sybil?
       - Ponha isto na sua cabea de uma vez por todas, a partir do momento em que deixar esta casa, no ser mais uma Darrington-Coombe, e eu a probo - est ouvindo? 
- eu a probo de tentar entrar em contato com qualquer um dos parentes de seu pai. Nem pense que eles existem. Nenhum deles est interessado em voc.
       - Que nome vou usar?
       - J escolhi um nome para voc.  simples, discreto e modesto. Na verdade,  o nome de uma antiga criada minha. Quando escrevi  Marquesa, disse que a pessoa 
que recomendava chamava-se Marsh.
       - Marsh? Por que... Marsh?
       -  um nome to bom como qualquer outro! - retrucou a Condessa  - No esquea, de forma alguma, que esse  seu nome, para todos os efeitos, voc nasceu em 
uma das vilas que ficam nas terras do Conde de Darrington-Coombe. Voc pertence a uma famlia de classe mdia, mas seus pais esto mortos. No h necessidade de 
ningum mais saber o que quer que seja a seu respeito.
       Ilita no podia acreditar no que ouvia.
       Enquanto cruzava a Europa, vindo de Florena, sentira-se terrivelmente s e desamparada. Era rf e sabia que o mundo seria hostil, mas pelo menos poderia 
ser ela mesma. Poderia ser a filha de pais que sempre a tinham amado, poderia andar de cabea erguida, porque levava nas veias o sangue deles.
       Agora, nem identidade tinha. Estava proibida de usar o nome dos pais, de mencion-los, no passava de uma estranha chamada Marsh, de origem desconhecida, 
que existia apenas na imaginao da Condessa.
       Estava nervosa, a ponto de levantar e dizer que no faria nada do quea Condessa ordenava. Desafiaria sua tutora, e embora no estivesse certa de como agir, 
haveria de encontrar algum parente do pai que tivesse piedade dela.
       Como se adivinhasse os pensamentos, a Condessa disse,
       
       - Se no me obedecer, pode ter certeza absoluta de que porei em prtica a outra alternativa. Vou procurar um convento que a receba e onde ficar enclausurada 
para o resto da vida! Pode ter certeza de que isso no ser difcil, pois farei uma boa doao para os fundos de caridade do convento.
       A Condessa falava vagarosamente, como se refletisse com cuidado sobre cada palavra. Ilita, assustada, disse rapidamente,
       - No... no! Farei o que me ordena, tia Sybil. vou trabalhar para a Marquesa!
       - Muito bem. E no cometa erros. Se for mandada embora por incompetncia ou porque no agradou  Marquesa de Lyss, pode ficar certa de que tomarei todas as 
providncias para que a situao no se repita uma segunda vez.  Compreendeu?
       - Compreendi.
       - timo! - disse a tia, olhando de relance para o relgio - Agora pode ir para o quarto que foi preparado nesta casa. Como, naturalmente, deve estar cansada 
depois da longa viagem, ficar aqui esta noite. Seu jantar ser servido em seu quarto. Amanh ser levada at a estao, onde tomar o trem que a levar at Oxfordshire, 
onde fica o Castelo de Lyss. J informei ao secretrio da Marquesa o horrio de sua chegada, e algum estar esperando por voc.
       Ilita percebeu que era o fim da conversa, e perguntou depressa,
       - H apenas uma coisa que gostaria de perguntar tia Sybil.
       - O que ?
       - Poderia me arranjar algum dinheiro... s um pouco? No vim com muito dinheiro de Florena, pois comprei alguns presentes antes de partir.
       - Surpreende-me que possa ser to extravagante - disse a tia com sarcasmo  - Naturalmente, voc ter seu salrio como leitora, mas decidi, impelida pela bondade 
de meu corao, que darei cinquenta libras anuais enquanto mantiver sua promessa. Espero que reconhea e agradea a minha generosidade. Portanto, mantenha-se no 
anonimato e no deixe ningum jamais saber de sua verdadeira identidade.
       Em voz mais alta, continuou,
       - Se eu ouvir um comentrio que seja de que voc no se manteve fiel  sua promessa, pode ter certeza absoluta de que suspenderei as cinquentas libras e vou 
procurar um convento para onde a mandarei em seguida.
       - Pode confiar em mim. Prometo que... serei discreta.
       A tia estendeu a mo e pegou um envelope selado que se achava sobre uma mesinha.
       - H vinte e cinco libras neste envelope, voc receber as vinte e cinco restantes daqui a seis meses. Receber em dinheiro vivo. No usarei cheques. Trate 
de manter seu emprego, e no me venha atrs de novas referncias, pois no darei.
       - Farei... o melhor que puder, tia Sybil.
       - No a verei mais - disse a tia, entregando o envelope  - No h razo para isso. Fiz o que estava ao meu alcance, dadas as circunstncias, e voc s tem 
a me agradecer. Afinal, a situao em que se encontra no  culpa de ningum, a no ser de seu pai, que sempre foi egosta e imprudente.
       Ilita prendeu a respirao. Odiava ouvir algum falar de seu pai daquelemodo, mas no adiantava discutir. Seria tolice.
       Ela apenas pegou o envelope, que mais gostaria de recusar, e dirigiu-se  porta. Antes de sair, olhou para trs e disse apenas,
       - Adeus, tia Sybil.
       - Lembre-se de minha recomendao.
       No corredor havia uma criada esperando por Ilita. Curvando respeitosamente diante dela, disse,
       - Devo lev-la  governanta, Milady, que j preparou um quarto.
       - Obrigada.
       Ela andou pelo longo corredor e subiu um lance de escadas para o segundo andar, onde ficavam os quartos menos importantes.  Esperando no topo das escadas 
achava-se uma mulher de meia idade, de cabelos brancos, usando um vestido preto de seda farfalhante e tendo uma corrente de prata na cintura, onde prendia diversas 
chaves.
       Ilita olhou para ela e deu um grito de alegria,
       - Senhora Fielding!  a Senhora Fielding, no?
       - Sim, Milady. Sou a Senhora Fielding. Admiro de que se lembre de mim depois de tantos anos!
       - Lembro que foi muito amvel comigo quando estive aqui.  A Senhora deu-me at uma caixa de biscoitinhos de gengibre para eu levar comigo na viagem.
       -  verdade! Agora venha, Milady. J preparei seu quarto. Naturalmente, deseja descansar depois de uma viagem to longa.
       Ela levou Ilita para um quarto lindamente decorado, cujas janelas se abriam para o jardim.
       Apenas um dos bas foi levado para cima, pois Ilida partiria no dia seguinte pela manh.
       - Cresceu bastante, e est uma linda jovem! - disse  Senhora Fielding  - Sempre a achei muito parecida com sua me, que Deus guarde sua alma. Mas no posso 
negar que tem algo de seu pai tambm. Nunca vi um homem mais bonito do que ele.
       - Gostaria que me falasse sobre o meu pai quando era menino - disse Ilita com meiguice  - No h ningum para me falar sobre ele.
       - Sim, sei, Milady, que  difcil, muito difcil o que est passando. Todos ns gostaramos muito que pudesse ficar conosco, mas a Senhora Condessa disse 
que vai partir amanh, para a casa de amigos, no campo.  Sei que no deseja ficar em Londres sem a companhia de seus pais.
       - ... isso mesmo.
       - Seu pai nunca foi um homem que gostasse da vida em cidade grande - continuou a Senhora Fielding, tagarelando - Ele gostava mais da vida do campo. Amava 
cavalgar, nadar, subir em rvores. No parava um minuto, fazia tantas travessuras que nunca sabamos o que iria aprontar no minuto seguinte!
       Ilita tirou o chapeuzinho e sentou-se na cama para ficar ouvindo. Pela primeira vez, desde que entrara naquela casa, o medo que a acompanhava pareceu diminuir 
um pouco. Sentia um leve conforto ao ouvir a conversa da amvel governanta.
       - Mal pude acreditar quando me disseram que seu pai estava morto! Todos ns estvamos to felizes por saber que ele era o novo Conde!
       - Papai iria sentir um tanto tolhido em sua nova posio.
       - Talvez se sentisse. Mas, ao mesmo tempo, seria bom para ns, ele sempre tinha uma palavra amvel e um sorriso para todos, era muito diferente de outras 
pessoas cujos nomes no devo mencionar!
       A Senhora Fielding apertou os lbios, percebendo que havia falado demais, e Ilita disse,
       - Obrigada por mandar trazer meu ba aqui para cima. Era exatamente desse ba que eu iria precisar.
       - Confesso que tive que olhar o contedo de cada um deles para ver qual devia ser trazido aqui para o seu quarto. Pelo nmero de livros que leva, e pelos 
outros objetos, vejo que vai montar uma casa, Milady.
       - Tudo o que tenho est nesses bas - disse Ilita com voz triste.
       A Senhora Fielding tirou a capa j gasta dos ombros de Ilita e perguntou,
       - O que gostaria de usar amanh para ir para o campo?
       - Terei que usar estas mesmas roupas. Receio que a maior parte de meus vestidos esteja fora de moda, Senhora Fielding. Mas achei que seria uma extravagncia 
comprar roupas novas em Florena, se eu estava vindo para Londres.
       Pensando que deveria dar uma outra explicao, ela disse rapidamente,
       - Mas minha tia disse que no h tempo para fazermos compras, assim, tenho que usar um dos vestidos que trouxe.
       Ela olhou para o ba que a Senhora Fielding abrira e pensou que, com certeza, a boa governanta devia estar achando aquelas roupas mais prprias para uma menina 
de colgio e muito simples e infantis para ela.
       - No est certo, Milady - disse a Senhora Fielding - que parta de mos vazias. Tenho certeza de que seus amigos do campo esperam v-la bem vestida e com 
roupas bonitas, de acordo com a moda. 
       - Bem, pode ser que eles fiquem desapontados, mas sou uma boa costureira, posso muito bem reformar meus vestidos e enfeit-los um pouco mais.
       Ao pensar nisso, ela imaginou que no faria nada muito extravagante. Alm disso, contando apenas com vinte e cinco libras para os prximos seis meses, precisaria 
planejar bem como gastar cada centavo. Felizmente, com o emprego de leitora, ela seria pouco mais do que uma criada, e no se esperava que se vestisse elegantemente.
       A Senhora Fielding estava de p, olhando para o ba eom uma expresso aborrecida no rosto.
       - Ento sabe costurar bem, Milady?
       - Muito bem. No convento recebi o primeiro prmio em costura e bordado. Fao vestidos com perfeio.
       Ela riu e explicou,
       - Pode parecer estranho, mas, no convento, todos os anos representvamos uma pea de Shakespeare, e o cenrio era pintado pelas alunas. Tambm fazamos todo 
o guarda-roupa. Como eu era considerada a melhor costureira, fiquei encarregada do guarda-roupa.
       - Nunca imaginei! Ento ser muito mais fcil ajud-la, Milady.
       - Ajudar-me? Como?
       - Tenho muitas peas da mais fina musselina, que a Condessa comprou h muitos anos para cortinas das janelas e das camas. Essas peas ficaram a esquecidas. 
Poderamos cortar alguns metros da musselina de que mais gostar para fazer alguns bonitos vestidos. No vai ser fcil ir s lojas morando no campo.
       Ilita sentiu que a governanta estava tendo muito tato ao falar com ela, pois devia saber muito bem que seu pai no deixara dinheiro algum e que a Condessa 
no tinha a menor inteno de ajudar a sobrinha.
       Numa casa grande como aquela, com tantos criados, todos sabiam de tudo o que se passava.
       Ilita lembrava que o pai sempre dizia que em todas as grandes manses, onde h um exrcito de criados, h tambm um exrcito de espies, que ouvem tudo, sabem 
de tudo e de quem no se pode esconder um segredo. O pai chegara at a dizer  esposa,
       - Todos os criados da sua casa e da minha sabiam que iramos nos casar muito antes de nosso casamento ser anunciado oficialmente.
       Deixando de lado as lembranas, Ilita disse,
       - Se puder me arranjar mesmo alguns metros de musselina, Senhora Fielding, ficarei muito grata, mas no quero aborrecer tia Sybil.
       - Ela nem vai ficar sabendo. Pode ficar certa de que no vai fazer falta. Espere um momento, que vou buscar as peas mais adequadas.
       Foi certamente um grande consolo para Ilita, ao deitar-se naquela noite, saber que, graas  Senhora Fielding, no precisaria preocupar-se com roupas novas.
       
       A governanta, ajudada por uma criada mais jovem, voltara ao quarto trazendo diversas peas de tecido.
       Havia musselina bordada com pequeninas flores, que fora comprada para decorar o quarto de Anthony, mas, nunca fora usada, porque a Condessa achara que tornaria 
a decorao feminina demais. Uma outra pea de musselina com babadinhos ia ser usada para fazer uma colcha. Outras ainda seriam usadas como parte interna das cortinas, 
para suavizar a textura mais pesada dos tecidos adamascados.
       A Senhora Fielding e Ilita escolheram o suficiente para cinco vestidos. Alm do tecido, a governanta achou tambm diversas peas de fita de cetim para os 
enfeites.
       - Como poderei agradecer tanta bondade? - perguntou Ilita.
       -  um grande prazer saber que ficar linda como sua me. Lembro-me de quando seu pai a trouxe a esta casa para conhecer o velho Conde. Seu av ficou muito 
zangado ao saber que os dois desejavam se casar! O velho Conde perguntou, "Do que iro viver?" Ele falava to alto que podamos ouvir.
       - Papai nunca se preocupou com dinheiro - disse Ilita.
       - Isso  verdade, Milady. Lembro-me de que o que seu av disse no impressionou o jovem casal. Eles saram da biblioteca de mos dadas, parecendo to felizes, 
que, ao v-los, me comovi at s lgrimas.  Seu pai me disse, "Deseje-nos felicidade, Fieldy". Era assim que ele sempre me chamava. Quando perguntei onde eles iriam 
morar, ele respondeu que viveriam "num cu s deles dois", fosse no alto de uma montanha ou no fundo do oceano, mas sempre estariam juntos e muito felizes!
       A Senhora Fielding enxugou uma lgrima e continuou,
       - Os dois se olhavam to apaixonadamente, que nem se lembravam de que havia gente perto deles. O que seu pai disse aconteceu. Ele e sua me viveram mesmo 
num cu s deles.
       -  verdade. Tambm partilhei desse cu. 
       Subitamente Ilita saltou da cama e foi at a janela, para a governanta no ver como ela estava infeliz. Agora ela havia perdido esse  paraso para sempre.
       "Como pode morrer to cedo, deixando-me sozinha, papai?", ela se perguntava.
       Ento pode ver o pai dizer, com um brilho nos olhos e um sorriso nos lbios,
       "Olhe para a frente! H sempre algo novo alm do horizonte. "
       "O que estaria reservado para mim?", ela pensou.
       Sabia que partiria na manh seguinte, deixando a Manso Darrington para  enfrentar um futuro que parecia ainda mais assustador do que quando ela viera para 
aquela casa.
       Um estranho sentimento perturbou Ilita a noite toda, tornando difcil conciliar o sono. Quando amanheceu, apenas a Senhora Fielding e o Senhor Shepherd vieram 
dizer adeus. Ela sentia-se como se estivesse partindo numa expedio, partia, porm sem mapa, sem bssola, sem guia.
       O Senhor Shepherd a colocou no trem na Estao de Paddington e acenou dizendo adeus. Agora, uma nova vida descortinava-se diante  dela.
       Ia sozinha, sem ao menos uma criada para acompanh-la. Isso era inadmissvel para uma jovem de sua condio, mas agora ela era pouco mais do que uma criada, 
e dispensava chaperon.
       "Devo me lembrar de que meu nome  Marsh", repetia mentalmente.
       Sozinha, entregue  prpria sorte, lembrava-se da voz ameaadora da tia, "Se no me obedecer, vou procurar um convento que a receba e onde ficar enclausurada 
pelo resto da vida! "
       Ilita no era tola e compreendia que a tia poderia muito bem cumprir sua ameaa. Uma tutora tinha controle total sobre uma jovem de dezoito anos, e poderia 
escolher o que considerasse melhor para sua tutelada. Se Ilita fosse mandada para um convento como postulante, no haveria a quem recorrer.   E a tia no escolheria 
para ela um convento como o de Florena.
       Esse convento onde ela estudara era muito diferente. Funcionava tambm como internato, e para l iam jovens de timas famlias, todas ricas. A sociedade reconhecia 
como excelente a educao que o Convento Santa Sofia dava s jovens que ali se formavam.
       Ilita no conhecia a parte onde as irms viviam enclausuradas, s em orao, sem jamais sarem dos muros que a cercavam. Muitas daquelas freiras vinham das 
famlias aristocrticas da Itlia.
       As alunas cochichavam ao ver as irms na capela, e comentavam que muitas delas abraavam a vida religiosa por terem tido desiluses amorosas, e outras teriam 
enviuvado ainda muito jovens. Para Ilita, aquele modo de vida era perda de tempo.A vida ao lado do pai, sim, era alegre! 
       
       Ele vivia tudo com intensidade, e irradiava felicidade a todos os que o rodeavam.
       Os amigos dele costumavam dizer que estar ao lado de Marcus era melhor do que tomar um tnico receitado por mdicos.
       Ilita lembrava-se de que o pai dissera, certa vez,
       - O problema  que no poderei viver para fazer tudo o que desejo. No estive na China. Quero ver a Grande Muralha antes de morrer. Quero descer o rio Nilo, 
e gostaria tambm de viajar por todo o Brasil. Isso para mencionar apenas alguns dos lugares que gostaria de explorar!
       - Queria tanto ir com voc, papai! - dissera Ilita.
       - Ir comigo. Vai ser emocionante para ns dois, querida.
        "Como poderei achar algum interesse no que quer que seja sem papai?", pensava Ilita, enquanto o trem ia resfolegando atravs de campinas verdejantes e densos 
bosques.
       Mas, de qualquer forma, ela teria que sobreviver fora do convento, numa terra completamente estranha para ela, mesmo sendo a Inglaterra, seu pas.
       Subitamente, ocorreu um pensamento sombrio, seria muito melhor estar morta, junto de seus pais. Ilita lutou contra aquele pensamento, sabendo que o pai o 
desaprovaria e a consideraria uma covarde.
       Era preciso ser corajosa e seguir em frente. Era preciso acreditar, como seu pai acreditara, que sempre haveria algo interessante ao se dobrar uma esquina, 
alm do horizonte, ou do outro lado de uma montanha.
       "Ajude-me, papai! Por favor, ajude-me!", ela dizia em silenciosa prece.
       Ali, sozinha, naquele compartimento de trem, ela no pode impedir que grossas lgrimas rolassem pela face.
       
       
       
       
CAPTULO III
       
       A estaozinha onde Ilita desceu para ir ao Castelo de Lyss era um lugar encantador, cheio de flores que cresciam em grandes barricas redondas. Ao lado dos 
escritrios havia uma sala de espera luxuosa.
       Um velho carregador estava na estao, e pareceu surpreso ao ver Ilita descer do trem e pedir-lhe para descarregar sua bagagem.
       Com dificuldade, ele ps os pesados bas na plataforma e perguntou,
       - Espera que algum venha busc-la, Senhorita?
       - Deve ter alguma carruagem vinda do Castelo de Lyss para me apanhar.
       - No chegou carruagem nenhuma at agora.
       Ilita ficou desconsolada. No esperava que acontecesse uma coisa dessas, e no sabia o que fazer.
       O velho carregador disse com ar paternal,
       - No se preocupe, Senhorita Deve aparecer algum dentro de um ou dois minutos.
       - Espero que sim.
       Ela caminhou at a porta e olhou ao seu redor. A paisagem que a cercava, com suas colinas ondulantes, os extensos campos verdes, a profuso de rvores, era 
mais luxuriante do que a da Itlia.
       Uma longa estrada poeirenta e sinuosa se perdia na distncia, mas no havia nela o menor sinal de carruagem.
       Ilita voltou  plataforma. Viu o carregador empilhar sua bagagem com cuidado e perguntou,
       - O que farei se no vier ningum me apanhar?
       - Pode ficar tranquila.  s uma questo de minutos. Logo viro busc-la.
       Como para confirmar suas palavras, ele foi at a porta da estao.
       Ilita achou melhor sentar em um banco de madeira e ficou pensando no que faria naquela circunstncia.
       Nesse instante ouviu o som de rodas, as batidas fortes dos cascos dos cavalos, e levantou. O carregador vinha vindo ao encontro dela.
       - No h nem sinal de carruagem alguma do Castelo, Senhorita, mas o fazendeiro Giles diz que pode lev-la at l, s que est com pressa.
       Enquanto o carregador falava, o fazendeiro, um homem corpulento, de meia idade, apareceu, carregando um engradado que deixou na plataforma. Ilita imaginou 
que o engradado seria despachado no prximo trem.
       - Posso lev-la at o Castelo, mas temos que ir depressa, seno atraso a entrega do leite.
       - Muito obrigada - disse Ilita, aflita.
       Ela pegou um dos volumes mais leves de sua bagagem e o carregador e o fazendeiro puseram os grandes bas na parte de trs da carroa, que era puxada por dois 
cavalos fortes.
       Ilita deu uma gorjeta ao carregador, dizendo,
       - Muito obrigada por ser to amvel.
       - Foi um prazer, Senhorita Cuide-se bem! - disse o carregador, passando a mo pelos cabelos ralos.
       Pela expresso do velho, Ilita notou que ele parecia apreensivo pelo que ela pudesse encontrar no Castelo. Mais do que depressa, afastou esse pensamento, 
achando que tudo no passava de imaginao.
       Ela subiu rapidamente na carroa, sentando no banco alto, ao lado do fazendeiro, que j tinha as rdeas nas mos, pronto para partir.
       Durante a viagem, Ilita manteve-se em silncio, no queria perturbar o fazendeiro, que se concentrava em obter dos cavalos a maior velocidade possvel.
       A vontade de Ilita, no entanto, era fazer perguntas a respeito do pessoal do Castelo, dos habitantes da regio e de tudo o que parecia to estranho.
       S depois que deixaram para trs uma simptica vila, com suas casinhas brancas de portas e janelas escuras, com o telhado revestido de palha, e que atravessaram 
os enormes portes presos a pilares de pedra, foi que o fazendeiro Giles disse,
       - Chegamos, mas duvido que o Castelo agrade, Senhorita
       - Por que diz isso?
       - As coisas j no so como antes. Est tudo muito diferente.
       - Diferente, em que sentido?
       O fazendeiro no respondeu, e Ilita sups que ele preferia ser discreto, achando que j havia falado demais.
       Ela olhou para a frente, apreensiva, at que viu nitidamente o lugar para onde sua tia a mandava e onde teria que viver. O Castelo, majestoso, pareceu muito 
grande e assustador.
       l mais perto, pode admirar aquele imponente exemplar da arquitetura georgiana, com seu prtico de entrada, que cobria os seis degraus de pedra e era sustentado 
por seis colunas corntias, que se erguiam a uma altura impressionante.
       Da parte central do Castelo saam duas alas enormes, cada uma das quais poderia muito bem ser uma Manso.
       No havia dvida de que era um Castelo belssimo, mas naquele momento Ilita daria tudo o que tinha para viver numa tenda no deserto, com o pai, e no ficar 
ali sozinha.
       O fazendeiro Giles encostou a carroa, com percia, bem junto aos degraus, desceu do banco e comeou a descarregar a bagagem de Ilita.
       Ela tambm desceu e estendeu a mo para agradecer ao fazendeiro, o que o surpreendeu.
       - Muito obrigada. Foi muita bondade sua me trazer at aqui. Sei que est com pressa e no o prenderei mais.
       Ele apertou a mo de Ilita meio rudemente, ergueu o chapu e voltou a seu banco, na carroa, sem demora.
       Vendo-o desaparecer por entre as rvores, Ilita sentiu que perdia um amigo, mesmo em se tratando de um homem no muito comunicativo.
       Ficou parada no primeiro degrau, olhando para a enorme porta fechada. Seria melhor subir e bater a aldrava, anunciando sua chegada.
       De repente, um pensamento a assustou. 
       Talvez a tia se enganasse, ningum soubesse de sua chegada. Era por isso que no havia ningum esperando por ela na estaozinha.
       Se isso tivesse acontecido, o que deveria fazer?
       Era melhor tocar e acabar com aqueles pensamentos tolos. Certamente algum Viria atender.
       Ilita comeou a subir lentamente os outros degraus, mas um barulho a fez olhar para trs. Viu  distncia uns cavalos por entre as rvores, exatamente por 
onde Giles havia passado. Pensou que talvez o fazendeiro estivesse voltando para trazer alguma coisa que tivesse ficado na carroa.
       Viu ento que era uma carruagem que se aproximava, puxada por quatro cavalos cujos freios de prata brilhavam ao sol. Um Cavalheiro de chapu alto dirigia 
a carruagem.
       De p no degrau mais alto, Ilita ficou olhando a carruagem, que se aproximava velozmente, at parar em frente aos degraus.
       Um cavalario saltou do banco traseiro e postou-se diante dos cavalos, segurandoe os freios, enquanto o Cavalheiro largava as rdeas e descia agilmente da 
carruagem.
       Ele ficou olhando para Ilita, surpreso, enquanto subia os degraus de dois em dois. Depois perguntou em voz um tanto spera,
       - O que est fazendo aqui? Que bagagem  esta?
       - Eu... vim para o Castelo porque... tenho um emprego aqui - disse Ilita em voz baixa.
       - Emprego? - interrompeu o Cavalheiro  - Ento por que est batendo nesta porta e no na porta dos fundos?
       Ele falava to rudemente que Ilita ficou olhando-o assustada, no s porque via que ele estava zangado, como tambm porque ele era muito alto e poderoso, 
e parecia quase amea-la.
       Vendo que ela no respondia, ele disse, irritado,
       - Vou ver o que est acontecendo!
       Subindo depressa os degraus, ele abriu a porta. 
       Devia haver algum abrindo a porta ao mesmo tempo, pois ouviu o Cavalheiro dizer,
       - O que est acontecendo? Por que essa moa espera a na frente? Onde esto os criados que atendem  porta?
       Sem esperar resposta, ele continuou com as perguntas,
       - Quem  voc? Onde est Glover?
       - O Senhor Glover est na despensa, Sir.
       - Ento v cham-lo! - ordenou o Cavalheiro  - Por que no est usando o casaco do uniforme?
       No ouvindo a resposta, Ilita imaginou que o homem com quem o Cavalheiro falava devia ter se afastado. Mal ele se afastara, Ilita ouviu outra voz dizer,
       - Ouvi vozes. O que est acontecendo? - Subitamente a voz mudou de tom.
       - Milorde! No o espervamos!
       - Isso  bvio!
       Ilita compreendeu que aquele era o Marqus de Lyss, o dono do Castelo. Infelizmente, a maneira como o conhecera no fora nada auspiciosa.
       O Marqus falava to alto que era impossvel no ouvi-lo.
       - Por que no h criados no hall, a no ser aquele mandrio sem casaco? E o que est fazendo essa moa a em frente, com uma tonelada de bagagem?
       O modo como ele falou fez Ilita ter vontade de desaparecer no ar. Pela porta, que estava aberta, ela viu um homem mais velho olhando para ela. 
       Era Glover, certamente.
       - Essa deve ser a moa que viria ler para a Marquesa, Milorde.
       - Ler para a Marquesa? O que quer dizer com isso? 
       Houve uma pequena pausa, depois Glover explicou,
       - Depois que partiu, Milorde, a Senhora Marquesa ficou cega.
       - Cega? - O Marqus estava atnito  - Como foi isso?
       - Ela estava cavalgando e caiu, Milorde. Isso foi h nove meses. Desde ento no pode mais enxergar.
       - Eu no tinha a menor idia  - A voz dele tornou-se mais suave  - Sheldon deveria ter me avisado. Preciso v-lo. Chame-o.
       Houve um momento de silncio, depois Glover disse, meio hesitante,
       - Acho que o Senhor Sheldon ainda no desceu, Milorde.
       - Ainda no desceu? O que h de errado com ele?
       - Ele deita-se muito tarde, Milorde.
       - Mas j  quase meio dia! Est dizendo que Sheldon anda to negligente que no est em seu escritrio a esta hora da manh?
       Glover no se sentia nada  vontade.
       - Acho que vai logo descobrir que desde sua viagem para o exterior as coisas mudaram muito neste Castelo, Milorde.
       - J notei mesmo!  isto o que encontro ao voltar! 
       Lembrando-se subitamente de Ilita, ele disse,
       - Suponho que a Senhora Lynton possa cuidar dessa jovem que est a fora com essa pilha de bagagem. Mande esse criado meio vestido dizer  Senhora Lynton 
que cheguei.
       - A Senhora Lynton est no Castelo, Milorde, mas no trabalha mais - disse o mordomo.
       - No trabalha mais? Por qu?
       - A Marquesa a despediu.
       - Despediu a Senhora Lynton? No posso acreditar!
       - Ela foi despedida, mas teve que ficar morando neste Castelo, onde trabalhou quarenta anos, porque no tem para onde ir. Vive trancada em seu quarto.
       - Mande busc-la, Glover! E depressa! - ordenou o Marqus  - vou cuidar disso!
       Ilita ouviu o mordomo dar ordens a um criado que estava por perto e dizer em seguida ao Marqus,
       - Se nos tivesse avisado de sua chegada, as coisas estariam melhores por aqui.
       - No quero que mantenha este Castelo em ordem s para me impressionar. Quero que tudo ande exatamente como antes de minha viagem para o exterior e antes 
da morte de meu pai. D uma olhada ao redor, este lugar est imundo! Olhe para a poeira acumulada sobre aquela arca! As janelas precisam de uma boa limpeza, e por 
que ainda h cinzas na lareira?
       - Tudo est muito mudado, Milorde! A maioria dos criados foi mandada embora.
       - Quem os despediu? Foi a Marquesa? Claro, foi ela! Fique sabendo que eu sou o dono de tudo isto, Glover! No posso acreditar que voc pudesse deixar minha 
propriedade chegar a este ponto de quase runa!
       - Eu sabia que ficaria muito aborrecido quando voltasse, Milorde, mas nada pude fazer, as coisas tm sido muito difceis e o Senhor Sheldon no tem andado 
em condies de enfrentar as dificuldades.
       - Pelo que est dizendo, presumo que ele ande bebendo. J havia percebido antes de partir que ele bebia em excesso, mas jamais pensei que chegasse ao ponto 
de no cuidar de seus deveres. O que est acontecendo na propriedade?
       - Receio que fique um pouco aborrecido...
       - Um pouco?
       A voz do Marqus soou to alta que ele tentou controlar-se e disse em seguida,
       - Vejo que a falta  toda minha por ter me ausentado por tanto tempo. A primeira coisa a fazer, Glover,  por seu prprio departamento em ordem. Quantos criados 
tem agora sob suas ordens?
       - Trs, Milorde, mas receio que eles no estejam  altura dos padres exigidos por Vossa Senhoria.
       - Ento trate de arranjar criados eficientes, e tome providncias para que se apresentem bem vestidos e no me apaream como esse espantalho que acabei de 
ver no hall!
       O Marqus se referia com certeza ao criado que havia ido chamar a Senhora Lynton. 
       Nesse momento a voz do Marqus mudou de tom.
       - Lynty! - ele exclamou, contente  - Graas a Deus voc ainda est aqui! O que est acontecendo nesta casa? Como pode ficar tudo nesta confuso s porque 
estive fora?
       - Tem razo, Milorde - disse a Senhora em voz suave  - Mas agora que est de volta, talvez tudo fique como era antes.
       - Pode ter certeza disso. Voc vai me ajudar a restabelecer a ordem aqui. No momento, quero que acomode a jovem que est parada a em frente com uma pilha 
de bagagem. Glover me disse que ela veio ler para a Marquesa.
       - No estou a par de nada, Milorde. Como eu estava "afastada", no sei como a contrataram.
       - No vejo razo para o seu afastamento, Lynty. Trate de assumir a direo desta casa, e aja como sempre agiu. Espero que tudo volte ao normal at amanh, 
ou o mais tardar depois de amanh.
       A Senhora Lynton riu.
       - Agora tenho certeza de que temos um patro em casa! Vejo que  exatamente como o Senhor seu pai. O falecido Marqus sempre queria as coisas feitas "para 
ontem"!
       - Ento sabe muito bem o que espero da criadagem. Espero tambm que os aposentos que irei usar estejam bem mais limpos do que estes.
       - Duvido que estejam. Mas no se preocupe. vou at a vila procurar os antigos criados que foram despedidos sem aviso prvio e sem ao menos uma penso, depois 
de servirem  famlia durante tantos anos!
       - Pode deixar que cuido disso! - prometeu o Marqus. 
       Enquanto o Marqus continuava a dar ordens, dois criados vieram buscar a bagagem de Ilita. 
       Ela entrou no hall e viu uma Senhora j de idade, naturalmente, a Senhora Lynton. Ela se vestia como a Senhora Fielding, s que no tinha na cintura a corrente 
de prata com as chaves dependuradas, uma vez que no estava exercendo as funes de governanta.
       Ao ver Ilita, a Senhora Lynton disse,
       -  a Senhorita Marsh, no? Devo pedir desculpas, Senhorita, porque ningum foi esper-la na estao, como era de se esperar.
       - Um fazendeiro muito amvel me trouxe at aqui - explicou Ilita - mas como ele estava com pressa, deixou minha bagagem nos degraus.
       - Bem, pelo menos ele a trouxe para o lugar certo. Por favor, queira me acompanhar. Vou lev-la aos seus aposentos.
       A Senhora Lynton subiu as escadas e Ilita a seguiu. Assim que ps a mo no corrimo, ela olhou para trs e viu que o Marqus continuava conversando com o 
mordomo.
       Notou ento que ele era um homem muito bonito e que se vestia no rigor da moda. Havia algo dinmico em seus modos, que at intimidava, mas no deixava dvidas 
de que ele desejava tudo feito a seu modo.
       No a surpreendia que o Marqus se zangasse tanto por causa da sujeira.
       Na verdade, uma camada grossa de p depositava-se nos mveis, e a luva de Ilita sujou quando ela pegou no corrimo.
       Ela seguiu depressa a Senhora Lynton, voltando a preocupar-se com o que estava reservado.
       At aquele momento, s tivera decepes. No era essa a recepo que esperava numa casa cuja dona era amiga de sua tia.
       Ilita tinha vontade de perguntar  governanta por que o Marqus se ausentara por tanto tempo e por que o Castelo estava to abandonado, mas sua timidez a 
impediu.  O primeiro andar era muito bonito, com o teto alto, em toda a extenso do corredor por onde elas andavam, havia quadros magnficos nas paredes, a moblia 
era francesa e, sem dvida, muito valiosa.  Tudo, porm, estava to sujo, que seria preciso um exrcito de empregados para que voltasse a ficar limpo e reluzente 
como o Marqus exigia.
       - Suponho - disse a Senhora Lynton em sua voz suave - que, como a Senhora Marquesa vai querer que leia para ela  noite, j que ela no dorme bem, ser melhor 
eu acomodar voc no quarto em frente ao dela. Vou providenciar para que esse quarto fique pronto o mais depressa possvel.
       Ela abriu uma porta e Ilita pode ver que o quarto no era muito grande. Os quartos que ficavam do outro lado deviam ser os maiores e mais importantes. As 
janelas estavam fechadas e as cortinas, corridas. Mas quando a Senhora Lynton abriu as cortinas, Ilita viu uma confortvel cama de lato com sanefas de babados e 
cortinas de chintz de lindo padro. A moblia tambm era muito bonita, e condizia com uma casa luxuosa.
       - H uma saleta que se comunica com este quarto. Suponho que goste de ter um lugar onde possa ficar a ss  - A Senhora Lynton olhou atentamente para Ilita 
- Vejo que  muito jovem para trabalhar. Perdoe-me se estou sendo muito curiosa, mas esta  a primeira vez que faz este tipo de coisa?
       Ilita fez que sim com a cabea.
       - Acabei de sair do colgio, e no sei exatamente o que querem que eu faa. Receio que a minha inexperincia irrite a Marquesa.
       Notando o tremor na voz de Ilita, a Senhora Lynton olhou-a com bondade e disse com brandura,
       - No precisa se preocupar, querida. Tenho certeza de que logo se acostumar e far muito bem tudo o que for pedido. A verdade  que a Marquesa no  mais 
a mesma pessoa. Ela mudou muito depois do acidente. Era uma mulher lindssima, aclamada onde quer que estivesse. O prprio Prncipe de Gales dizia que a Marquesa 
de Lyss era a mulher mais encantadora que ele conhecera. Agora pode compreender o que significa para ela estar cega!
       - Claro, compreendo. Farei todo o possvel para ajud-la.
       - Tenho certeza que sim. Contar com uma pessoa que leia para ela e fique ao seu lado vai ajud-la a no pensar tanto em sua infelicidade.
       A Senhora Lynton fez uma pequena pausa e depois disse,
       - Estive pensando se no seria melhor ir ver a Marquesa agora. Voc poderia tirar o chapu e a capa e ir lavar as mos. Enquanto isso, vou ver se a Marquesa 
est preparada para receb-la.
       Ilita obedeceu, como se uma amvel bab ou uma das freiras do convento tivesse dando ordens. Tirou o chapeuzinho, ajeitou os cabelos e lavou as mos na gua 
fria da jarra, que devia estar ali h muito tempo, mas pelo menos serviu para tirar o encardido do trem.  De certa forma, sentia aliviada por saber que sua patroa 
no poderia v-la e no a criticaria, como a tia havia feito. Ela no poderia reparar que seu vestido estava amassado pela viagem, nem que j era gasto e estava 
apertado no busto.
       Antes que Ilita cogitasse mais de sua aparncia, a Senhora Lynton voltou.
       - Trouxe a criada da Marquesa para conhec-la, Senhorita Marsh - ela disse  - Esta  a Senhorita Jones. Ela acha que deve mesmo ver a Marquesa imediatamente.
       Ilita estendeu a mo, mas a Senhorita Jones mal a tocou e disse,
       - Devo avisar que a Marquesa j est arrependida de ter empregado uma pessoa para ler para ela. Mas j que a Senhorita est aqui, deve assumir sua posio. 
Acho uma leitora perfeitamente dispensvel. Posso muito bem fazer isso!
       Ilita achou que o modo de a criada se referir a ela era muito grosseiro e que sua voz no era agradvel para uma pessoa cega ouvir, mas disse depressa,
       - Oh, por favor! Sinceramente, espero no causar problema para voc. Gostaria de contar com sua ajuda. Nunca tive um emprego como este, e sei que cometerei 
muitos erros.
       - O que a fez escolher um emprego to idiota desses? - perguntou a Senhorita Jones agressivamente.
       - No fui eu quem escolheu. Mas no sei o que mais poderia fazer.
       - Acho que poderia costurar - disse a criada quase rudemente.
       - Oh, sim! Gostaria muito de ajudar voc a cuidar das coisas da Marquesa, se me permitir.
       Por um momento Jones pareceu surpresa, depois disse, relutante,
       - Bem, seria muito interessante ter uma pessoa para me ajudar, considerando todo o trabalho que tenho para fazer.
       Em seguida, como se no quisesse ser cordata demais, ela ordenou,
       - Vamos! A Marquesa est esperando.
       Ela atravessou o corredor e Ilita a seguiu, entrando por uma porta alta, de mogno, num quarto extremamente desarrumado.
       Era um lindo quarto, com uma cama com dossel e trs janelas que deviam dar para a frente do Castelo. A Marquesa estava sentada na cama, recostada em travesseiros 
arrematados com renda. Ao lado da cama, sobre as poltronas e o sof, havia roupas jogadas, na maior desordem. Sobre a penteadeira havia uma poro de escovas e pentes, 
e um pote de creme. Na lareira, como o Marqus havia notado na sala, as cinzas no haviam sido removidas.
       Em voz queixosa, a Marquesa perguntou,
       - Est a a pessoa que a Condessa de Darrington mandou como leitora?
       Ilita aproximou-se da cama.
       - Sim, Milady. estou aqui.  muita bondade sua querer empregar-me.
       Ilita ia fazer uma mesura, mas isso era desnecessrio, pois a mulher  sua frente tinha uma bandagem sobre os olhos.
       Ilita pode ver como a Marquesa era linda. 
       Seus cabelos eram escuros, quase pretos, e caam sobre os ombros. Era uma pena que estivessem to mal arrumados. A pele da Marquesa era muito clara e seus 
traos eram clssicos, semelhantes ao de uma esttua grega.
       Ela usava uma camisola difana, muito transparente, que at causou embarao em Ilita. Consternada, percebeu que a camisola precisava ser lavada e a renda, 
cerzida.  O mesmo se podia dizer dos lenis, que, apesar de serem da mais fina  qualidade, arrematados com renda vienense, carssima, estavam respingados  de comida 
e no eram trocados h muito tempo.
       - S Deus sabe se uma pessoa que leia para mim ir me ajudar! Preciso  de meus prprios olhos para ver, no dos seus! - lamentou a Marquesa.
       - Sinto que poderei ajud-la - disse Ilita com bondade - vou ler coisas interessantes publicadas nos jornais, e tambm poderei ler os livros novos que so 
publicados continuamente.
       - No tenho lido nada desde que deixei o colgio, e isso foi h muitos anos. E agora, por que haveria de me interessar em ouvir o que para as outras pessoas 
 uma diverso, se no posso fazer nada a no ser ficar aqui entregue  minha desgraa? Est ouvindo bem?  Minha desgraa!
       - Sinto muito, mas tenho certeza de que tudo vai melhorar! Sei que vai!
       Ilita falou de maneira espontnea e sincera, mas, apesar disso, a Marquesa ficou tensa.
       - Por que diz isso? Como pode dizer com tanta segurana que eu enxergarei novamente?
       - Tenho certeza de que vai ficar boa, mas isso vai levar algum tempo.
       - Quem a mandou dizer isso para mim? Todos os mdicos e especialistas disseram que no podem afirmar se eu terei alguma melhora. Como pode ter tanta certeza?
       Depois de ficar uns segundos em silncio, Ilita disse,
       - s vezes, e isso ocorre apenas ocasionalmente em minha vida, sei das coisas por percepo. Podem chamar a isso de instinto ou intuio, pois nada tem a 
ver com a lgica ou com o raciocnio comum. Talvez eu at esteja errada em dizer o que disse, Milady, mas sinto, do fundo de meu corao, que um dia vai voltar a 
enxergar.
       Mesmo falando com convico, Ilita pensou que talvez fosse um erro estar levantando esperanas vs na enferma.
       Mas no podia ter engano. O que ela dizia vinha do fundo de sua alma, e nunca errava quando seguia seu instinto.
       - Se o que diz for mesmo verdade - disse a Marquesa em voz baixa - ser a coisa mais maravilhosa que poder me acontecer! Est me ouvindo, Jones ? Voc ouviu 
o que esta jovem me disse?
       - Sim, Milady, mas ela no  especialista, e no adianta ficar se desgastando emocionalmente por nada.
       - Ora, Jones! Se  verdade o que ela diz - e por que no poderia ser verdade? - ah, eu voltaria a ser a mesma pessoa que era antes de aquele cavalo me derrubar! 
Oh, por que isso foi me acontecer?
       Ela deu um grito de agonia, e instintivamente Ilita segurou a mo.
       - Creia. Apenas creia. A f  muito mais importante do que qualquer remdio que um mdico possa receitar.
       Ao dizer aquilo, pensava na f que realizava verdadeiros milagres, quando ela andava com o pai pelo deserto. Quando os rabes diziam que algo ia acontecer, 
estranhamente, aquilo acontecia.
       Ela havia visto homens considerados mortos recuperarem de seus ferimentos e viverem. Vira tambm mulheres quase  morte, depois de terem dado  luz, viverem 
por acreditarem que seus filhos precisavam delas. 
       Conheceu ainda feiticeiros que haviam feito verdadeiros milagres em casos de doentes desenganados pelos mdicos missionrios.
       - Creia - insistiu Ilita com sua voz meiga  - Tenha f e eu a ajudarei.
       A Marquesa apertou a mo de Ilita e disse,
       - Se conseguir isso, juro que farei tudo o que quiser para demonstrar minha gratido! O que quiser!
       Ilita sentiu que a Marquesa apertava a mo com mais fora, como se estivesse agarrando um fio de esperana.
       Parecendo estar com cimes, a Senhorita Jones as interrompeu rispidamente.
       - Bem, espero que tudo isto que estou ouvindo no seja fogo de palha. Falar  muito fcil. Quero ver o resultado.
       - O que eu quero ver  a luz, no a escurido! - murmurou a Marquesa.
       Ela soltou a mo de Ilita ao ouvir a Senhorita Jones dizer,
       - Seu almoo ser servido em seguida, Milady. A melhor coisa a fazer  alimentar-se bem, o que no tem feito.
       Ilita dirigiu a Jones um olhar indagador, e a criada disse, 
       - Pode deixar-nos agora, que cuidarei da Marquesa. Ela no gosta que a vejam comendo e no posso culp-la por isso. Ilita caminhou at a porta e a Marquesa 
pediu,
       - Volte mais tarde para me ver. Gostaria de conversar com voc.
       - Est bem, Milady.
       Como esperava, a Senhorita Lynton estava parada no corredor. Como a porta ficara aberta, ela pudera ouvir toda a conversa.
       A governanta acompanhou Ilita a seu quarto, em silncio. S quando entraram, disse,
       - Estive pensando, Senhorita Marsh, que seria melhor tomar as suas refeies aqui na sala, pois no ficaria bem comer na copa com os criados.
       - Obrigada, Senhora Lynton. Tambm prefiro comer aqui em meus aposentos, sozinha.
       - J vou providenciar que um criado traga seu almoo, e se houver qualquer coisa que queira pedir ou de que no goste, pode me dizer. De hoje em diante as 
coisas voltaro ao normal. J no era sem tempo!
       Dizendo essas ltimas palavras com certa aspereza, ela saiu do quarto, tendo o cuidado de fechar a porta.
       Ilita atravessou o quarto e foi para a saleta, pensando em tudo o que havia acontecido at o momento. Tudo parecia to estranho, to diferente do que esperava!
       Agora ela se perguntava como pudera ser to categrica ao dizer que a Marquesa iria recuperar a viso.
       - Deve ter sido voc, papai - disse ela em voz alta  - Foi voc quem me inspirou o que dizer.
       Certamente, seu pai e sua me iriam compreend-la. 
       Enquanto se entregava a seus pensamentos, tentando organizar as idias, um criado, um tanto nervoso, veio trazer o almoo em uma bandeja, e ficou esperando, 
muito desajeitadamente, que ela comesse.
       Enquanto comia, Ilita ia pensando no que poderia ter acontecido no Castelo para estar to abandonado. Sua me sempre dissera que nas grandes casas, como a 
Manso Darrington e o Castelo de Lyss, reinava a mais perfeita ordem, tudo funcionava como uma mquina bem lubrificada, porque a maioria dos criados viviam ali a 
vida toda. Eles cuidavam de tudo como se a casa fosse deles, orgulhavam-se disso e a chamavam de "nossa casa".
       A me de Ilita explicara tambm que os criados de cada departamento eram treinados durante anos e iam sendo promovidos at alcanarem o topo.
       Assim, o criado aprendiz se tornaria despenseiro, este se tornaria criado de libr, e nesse cargo iria sendo promovido do primeiro at o sexto grau. Depois 
desse posto, havendo vaga, poderia tornar-se mordomo.  O mesmo se aplicava s criadas, aos cavalarios e a todos os empregados nos vrios departamentos de uma grande 
propriedade, tais como os pedreiros, os carpinteiros, as lavadeiras, os jardineiros, os guardas florestais e os capatazes.
       Todas as grandes casas eram como um Estado, explicara a me de Ilita, e ela, sentada  sombra de uma palmeira, num osis, ficava fascinada ao ouvir o que 
a me contava. Achava mais interessante ouvir coisas sobre o passado da me do que histrias de fadas. Mas agora, no Castelo de Lyss, a mquina parecia ter quebrado, 
e as pessoas que punham a mquina para funcionar haviam sido despedidas enquanto o Marqus estivera fora.
       Por que teria o Marqus se ausentado por tanto tempo?
       Tudo parecia interessante e misterioso. Era como se Ilita estivesse lendo um conto e, ao virar as pginas, decifrando um enigma, encontrando as respostas. 
Assim que acabasse de almoar, Ilita pensara em explorar o Castelo, se pudesse. Entretanto, lembrou-se de que era paga para cuidar da Marquesa. Seria melhor ir perguntar 
 criada que antipatizara com ela a que horas a Marquesa iria precisar de seus servios. 
       Abriu a porta que dava para o corredor, para ver se por acaso a Senhorita Jones estaria por perto. No havia sinal da criada, e a porta do quarto da Marquesa 
estava bem fechada. Ilita ficou parada por uns segundos, indecisa, sem saber o que deveria fazer. Ento viu algum surgir no fundo do corredor e vir caminhando em 
sua direo de maneira decidida.
       Era o Marqus, e parecia estar muito zangado.
CAPTULO IV
       
       Quando o Marqus se aproximou, llita viu que ele estava mais zangado do que parecera  distncia, e achou-o ainda mais assustador.
       - Quero falar com minha madrasta - disse ele abruptamente  - V perguntar se ela pode me receber.
       Era uma ordem, llita foi at o quarto da Marquesa, bateu levemente na porta e abriu. No mesmo instante a Marquesa gritou,
       - Quero falar com a Senhorita Marsh!  a Senhorita quem est a, Senhorita Marsh?
       - Sim, sou eu!
       Como a Marquesa parecia aflita, ela correu at o leito, deixando a porta aberta.
       A Marquesa estendeu a mo e llita segurou-a.
       - Diga-me a verdade. Acha mesmo que posso recuperar a viso?
       - Sim, Milady.
       Ao dizer isso llita percebeu que o Marqus entrava no quarto. 
       Ele aproximou ficando de p em frente  cama.
       - Falaremos sobre isso mais tarde - disse llita  - O Marqus est aqui e deseja falar.
       - Quero mesmo conversar com voc! - disse o Marqus asperamente  - Poderia me explicar por que deu ordens para destrurem meus cavalos?
       A voz dele saiu vibrante de raiva e ecoou pelo quarto. Ainda segurando a mo de llita, a Marquesa respondeu,
       - Rufus me derrubou!  por isso que estou aqui, cega e desolada.
       - E ento decidiu se vingar dos pobres animais? Felizmente Abbey no foi to tolo e, com exceo de Rufus, todos os outros cavalos  esto vivos, jamais poderia 
acreditar que uma pessoa pudesse ser to vingativa a ponto de querer eliminar no s os cavalos, mas de querer arruinar toda esta propriedade!
       - Ento isso o aborreceu, no? E o que me importa? De que me servem este Castelo e estas terras se no posso ver?
       - No me surpreende que voc no pense nos outros, s em si mesma. Sempre foi assim. Quando enganou meu pai para que deixasse todo o dinheiro dele, ele no 
poderia imaginar que voc fosse se comportar de maneira to desprezvel e criminosa com relao a este lugar que tem estado no corao da minha famlia durante geraes, 
como uma coisa sagrada,
       - Exatamente! Sagrada  a palavra certa! - replicou a Marquesa  - Vocs louvam tijolos e argamassa, prdios e campos! E eu estou aqui como uma morta, com 
a diferena de que respiro!
       A voz da Marquesa era estridente, e o Marqus respondeu com frieza,
       - Que modo mais ridculo de falar! Fique sabendo que despedi aquele beberro idiota que fazia de conta que administrava a propriedade para voc. Agora quero 
que me d uma procurao judicial para eu poder salvar da runa total este lugar que j foi prspero e feliz.
       - Procurao judicial? - gritou a Marquesa  - A voc? Seria mais fcil eu d-la ao prprio diabo. Odeio voc, Terill, est ouvindo? Odeio voc. Sempre odiei. 
Voc tentou impedir seu pai de se casar comigo, e agora voc, este seu Castelo e seus criados decrpitos podem ir para o inferno!
       Ela parou um pouco para respirar e depois continuou gritando,
       - No darei um centavo da fortuna que seu pai me deixou!  meu dinheiro! Meu, ouviu? Se voc e todos nesta casa estiverem morrendo de fome, melhor! S sinto 
no poder ver suas caras e rir!
       - Se  sua ltima palavra - disse o Marqus com voz fria como ao, que soou como uma chicotada - s posso dizer que essa queda do cavalo no s afetou os 
olhos, mas o crebro. Voc est louca, e quanto mais cedo for para um hospcio, melhor!
       O Marqus virou depressa e saiu do quarto, batendo a porta.
       Ilita estava imvel, no s porque a Marquesa ainda segurava a mo, mas tambm porque ficara gelada com aquela discusso violenta. 
       Jamais ouvira palavras to venenosas, e sentia-se como se a tivessem agredido fisicamente.
       Os passos do Marqus j no ressoavam no corredor, e Ilita ainda tremia.
       - O que ele quis dizer? Ser que estarei louca? - perguntou a Marquesa  - Tambm, se estiver, no ficarei surpresa.
       - Ele est zangado - disse Ilita, suavemente  - O que poderia t-lo deixado to furioso?
       A Marquesa sentou abruptamente.
       - Vou contar o que o deixou to furioso - disse ela soltando a mo de Ilita  -  porque eu fechei a bolsa e no solto o dinheiro! Ele depende de mim, a madrasta 
que ele no queria ter , a mulher que se casou com o pai dele, apesar de seus rogos.
       Ela falava com um prazer mrbido, e o que dizia pareceu ainda mais desagradvel. A vontade de Ilita era sair dali e no se envolver. Mas era preciso saber 
o que acontecia, mesmo estando assustada.
       - Ento o Marqus  seu enteado? Pensei que ele fosse seu marido! - disse ela depois de uma pausa.
       A Marquesa deu uma risada nada agradvel.
       - Terill antes preferiria casar-se com a feiticeira de Endor do que comigo. Ele me odiou desde o primeiro instante em que percebeu que seu pai me achava atraente 
e se interessava por mim.
       A Marquesa ficou em silncio, como se estivesse recordando o passado. 
       Depois disse com calma,
       - Eu era muito jovem para casar-me com um homem de cinquenta anos, como o Marqus de Lyss. Mas como poderia recusar um casamento to vantajoso? Eu no tinha 
um pretendente que fosse to distinto nem to importante, socialmente falando. Eu era linda, muito, muito linda, Senhorita Marsh. No havia um homem em Londres que 
no estivesse disposto a cair a meus ps, a no ser, claro, meu enteado!
       Ela desferiu estas ltimas palavras entre dentes, em tom desafiador,
       - Mas eu venci! Agora ele vem at mim pedir socorro, mas nada farei para ajud-lo. Quero que tudo isto desmorone, que se torne runa e p!
       Havia tanto prazer no rosto da Marquesa que Ilita estremeceu. Mesmo hesitando, temendo contrariar a patroa, ela perguntou,
       - E se tudo isto aqui se transformar em runas... isso a deixar... feliz?
       - Feliz? Para que preciso de felicidade, agora que no posso ver? Acontece que, se me sinto desgraada, quero ver todos desgraados tambm.
       Impulsivamente, Ilita deu um grito.
       - No! Oh, no! Por favor, no deve falar assim!  um erro! Esses pensamentos horrveis iro ferir no s aqueles a quem deseja punir, mas tambm a si prpria.
       -  possvel ficar mais ferida do que j estou? 
       Como se tivesse uma inspirao, Ilita respondeu,
       - O que sente e o que est planejando  como uma arma que pode virar-se contra a Senhora. Se odeia, esse dio envenena todo o seu ser. Se quiser recuperar 
a viso, deve estar s de corpo e mente.
       A Marquesa ajeitou-se melhor nos travesseiros, depois ficou em silncio. 
       Ilita achou que ela estava zangada e iria despedi-la imediatamente, por ter sido impertinente e por se intrometer num assunto que no dizia respeito.
       O silncio foi to prolongado que Ilita disse, com voz trmula,
       - Quer que eu saia, Milady? Talvez deseje ficar sozinha.
       - No, no! Fique comigo. No deve ir embora. S estou tentando compreender tudo o que me disse. J me afirmou que poderei recuperar a viso. Agora mudou 
de idia? O que me disse antes era uma mentira?
       - Era verdade. Mas devo dizer que o dio, a raiva, a violncia podem impedir o corpo de se curar. Portanto, se quer voltar a enxergar, no pode impedir o 
trabalho de Deus, usando armas... de Sat!
       As palavras que Ilita dizia eram a repetio de frases que ela se lembrava de ter ouvido de mulheres sbias ou de ancios das tribos rabes, no deserto. Sua 
me sempre dizia que esse povo via as coisas mais claramente do que os chamados "do mundo civilizado". Para aqueles havia apenas o bem e o mal, o homem s podia 
servir a Al ou ser contra ele, no havia meias medidas!
       A Marquesa ficou muito quieta depois de ouvir Ilita. Ento estendeu a mo e tateou at segurar a mo da jovem, dizendo,
       - Ajude-me! Tem que me ajudar! Ningum jamais me deu ao menos um raio de esperana.
       - Mas h esperana. H uma luz brilhando na escurido. Quem tem que descobrir essa luz  a Senhora, Milady.
       Ilita correu os olhos pelo quarto em desordem, pelas roupas desleixadas da Marquesa, os cabelos despenteados, que caam sobre os ombros, e disse impulsivamente,
       - Posso sugerir uma coisa, Milady?
       - O que ?
       - Acho que se sentiria mais confortvel se trocssemos a roupa de cama e se arrumssemos este quarto. Talvez fosse melhor ir para outro aposento  enquanto 
fazemos esse servio.
       - Que importncia tem que o quarto esteja ou no arrumado, se no posso ver? No gosto de movimento. Quero apenas ficar aqui bem quietinha. Sinto vontade 
de morrer.
       - No pode ser verdade - disse Ilita com carinho  - Est desejando poder enxergar, e creio que no gostaria de ver a feira que a rodeia.
       Atnita, a Marquesa replicou,
       - Est dizendo que este quarto, que eu mesma decorei,  feio?
       - Est em desordem e precisa de uma boa limpeza - disse Ilita com voz firme.
       - E eu como estou? Qual  a minha aparncia?
       Ilita achou que havia ido longe demais. O tom da Marquesa soou como um aviso e Ilita lembrou da tia dizendo que no poderia perder aquele emprego. Ento, 
dando um sorriso sem graa, que a Marquesa no pode ver, ela disse,
       - Prefiro no responder a essa pergunta. 
       A Marquesa deu um grito.
       - Quer dizer que estou feia! O que aconteceu com o meu rosto? Minha pele est marcada? Estou cheia de rugas na testa e ao redor da boca? Diga-me! Quero a 
verdade!
       - Quer ouvir mesmo a verdade? - perguntou Ilita, suavemente.
       - Ordeno que diga exatamente o que pensa.
       - Pode ser que se zangue comigo.
       - E o que importa se eu ficar zangada?
       - Talvez no queira mais saber de mim e me mande embora.
       - No seja ridcula! Claro que no a mandarei embora. Voc tem que me ajudar a recuperar a viso. Agora responda, qual  a minha aparncia?
       - Acho que a Senhora  a pessoa mais linda que j vi na minha vida, mas no momento parece um quadro mal cuidado ou a esttua de uma deusa grega que foi deixada 
sem abrigo, tomando chuva e sol.
       A Marquesa comeou a rir.
       - Est sendo muito sutil, Senhorita Marsh. Mas entendi exatamente o que quis dizer! Ajude-me a sair da cama e diga s criadas para arrumarem o quarto como 
deseja.
       Quase trs horas mais tarde, cansada, como se tivesse se debatido num mar revolto para sobreviver, Ilita deixou o quarto da Marquesa, que havia sido levada 
para o quarto vizinho. Este achava-se igualmente sujo e desleixado. Uma das criadas que atendera  sineta recebera ordens de ir buscar a Senhora Lynton.
       Nem foi preciso explicar  governanta o que era preciso fazer. Num relance a Senhora Lynton viu a desordem em que tudo se achava e j comeou a dar ordens 
s criadas. Estas estavam apreensivas porque, certamente, seriam repreendidas por deixarem um ambiente to rico chegar quele estado de abandono.
       A eficiente governanta ficou dirigindo a limpeza e Ilita correu para ver a Marquesa. O tempo todo ela s falou em si mesma e sobre a recuperao de sua viso. 
Vezes sem conta fez a jovem repetir que ela voltaria a enxergar.
       Era difcil para Ilita, vendo aquela mulher com os olhos cobertos por uma bandagem, no ter dvidas sobre sua intuio. Ao mesmo tempo, sentia que seu pai 
a guiava naquela extraordinria circunstncia em que se achava, e suas dvidas desapareciam. Vinha nova convico de que no havia erro no que dizia e fazia.
       " o poder da vontade que importa", ela pensava, lembrando-se do que os pais haviam ensinado.
       Uma das histrias que ela se lembrava de ter ouvido em criana era a de uma Princesa rabe que ia casar-se com um Sulto poderoso. Antes do casamento ela 
foi acometida por uma doena terrvel, nos olhos, que era  comum no Oriente. Os feiticeiros, adivinhos e astrlogos convocados para examinla foram unnimes em afirmar 
que nada poderia ser feito. 
       A Princesa ficaria cega para sempre. Entretanto, ela teve um sonho onde fora dito que devia lavar os olhos nas guas claras de uma determinada cascata. Ao 
acordar, ela soube o que fazer. A regio onde morava era das mais ridas. A princesa saiu sozinha, sem direo, e foi procurar a cascata de seu sonho.
       Era uma longa histria, mas no final, depois de muito vagar pelo deserto, a Princesa encontrou a cascata e atirou-se nas guas. Algumas mulheres nativas, 
que lavavam roupa  beira da cascata, viram a Princesa e salvaram de morrer afogada. Essas mulheres recolheram-na, deram abrigo e comida. Diariamente a princesa 
banhava-se na cascata. Depois de uma semana, comeou a ver indistintamente, e foi melhorando, at ficar completamente curada.
       Essa histria fora contada a llita em rabe, e agora ela a contava  Marquesa, em ingls. Sentia que os pais estavam ali bem perto dela.
       - Voc acha que a gua poderia me ajudar? - disse a Marquesa depois de ouvir a histria.
       - No s a gua fresca pode ajudar, mas tambm o sl e ar puro. Tem necessidade de usar essa bandagem?
       - Eu a uso apenas porque no suporto pensar em meus olhos frios, no olhar vazio fixado nas pessoas, sem nada ver!
       - Vamos remov-la - disse llita suavemente  - Acho que no  bom esconder  seus olhos, nem comprimi-los.
       A Marquesa removeu a bandagem, e ao ver o rosto descoberto, llita mais uma vez achou a mulher mais linda que j vira.
       Entretanto, notou tambm que ela aparentava ter muito mais idade. Havia linhas escuras sob seus olhos e pequenas rugas ao redor dos lbios bem feitos.
       - J sei o que tem a fazer - disse llita, impulsivamente - Deve pensar s em beleza, deve se cercar s de coisas lindas. Nada que no seja belo deve passar 
pela mente ou pelo corao.
       - Isso  pedir demais. Vivi odiando durante tanto tempo que ser difcil mudar.
       - Mas deve acreditar que se no fizer isso no alcanar a cascata cujas guas curam, como na histria da princesa. Portanto, procure ser sensata e domine 
sua vontade.
       Novamente, a Marquesa comeou a rir.
       - At parece que est me ditando as regras de um jogo. Muito bem, vou jogar com voc. O que faremos a seguir?
       - Quando seu quarto estiver pronto, acho que deve descansar. Mas amanh vai levantar e vamos sair para um passeio a p e para tomar o sol da manh. Vamos 
deixar que a terra, as rvores, as flores e o sol exeram seu poder de cura.
       - Estou at ficando entusiasmada, mas no quero que ningum me veja.
       - As pessoas iro v-la, sim, e notaro que continua to linda como antes do acidente. O importante  que elas vejam que seu interior tambm  bonito, e no 
apenas sua aparncia exterior.
       - Compreendo o que quer dizer, e prometo que me esforarei.
       A porta se abriu e a Senhora Lynton apareceu, dizendo que o quarto j estava pronto.
       A Marquesa ficou surpresa ao ouvir a voz da Senhora Lynton, e virou-se para a porta. Ilita percebeu que ela no esperava que a governanta estivesse trabalhando 
no Castelo novamente.
       -  a Senhora Lynton? - perguntou a Marquesa em voz baixa.
       - Sim, Milady, sou eu.
       - Estou muito feliz porque voltou. Fiz muito mal em t-la despedido.
       A governanta achou difcil responder, mas afinal conseguiu dizer,
       - No quero que se aborrea, Milady. Pode ficar tranquila, que cuido de tudo neste Castelo.
       - Obrigada, Senhora Lynton.
       Ilita guiou a Marquesa de volta para seus aposentos, onde j havia uma linda camisola limpa para ela trocar. Antes de ir deitar-se, a Marquesa sentou na penteadeira 
e deixou que uma das criadas escovasse os cabelos.
       A Senhorita Jones no estava no quarto, e Ilita no quis fazer perguntas. Cansada, a Marquesa se deitou.
       - Durma um pouco, Milady - sugeriu a Senhora Lynton - Depois mandarei servir seu ch, e ento a Senhorita Marsh vir fazer-lhe companhia e podero conversar 
um pouco.
       - No vai embora, no , Senhorita Marsh? - perguntou a Marquesa  - No quero acordar sem que esteja ao meu lado, para no pensar que s existiu num sonho.
       - Claro que no! Assim que precisar de mim, estarei ao seu lado.
       A Marquesa deslizou por entre os lenis limpos, parecendo outra pessoa. Logo cerrou as plpebras, vencida pelo cansao, adormeceu.  A governanta e Ilita 
saram do quarto. No corredor, a Senhora Lynton disse,
       - Fez um excelente trabalho, Senhorita Marsh! Mal pude acreditar que Milady estivesse vivendo naquele abandono. vou cuidar para que isso no acontea novamente.
       - Assim espero. Porm, receio que a Senhorita Jones ache que me intrometi demais.
       - No se preocupe com a Senhorita Jones. Ela foi embora.
       - Foi embora?
       - Ela percebeu que, comigo dirigindo a casa, seria forada a desempenhar bem suas tarefas, ou teria que pedir demisso. Vi muito bem como ela foi negligente 
com a Marquesa. Quando o Senhor Marqus despediu o Senhor Sheldon, Jones tambm quis ir embora. Aqueles dois eram ntimos demais.  Espero que me entenda. Isso no 
pode acontecer numa casa como esta!
       Ilita no tinha o que responder, e j ia entrando em seu quarto quando a governanta disse ainda,
       - O Senhor Marqus deseja v-la, Senhorita, assim que estiver livre. Ele est na biblioteca. Encontrar um criado junto s escadas que ensinar o caminho.
       - Ele ainda est zangado? - perguntou Ilita, apreensiva.
       - No tenho a menor idia. Mas, se estiver, no ser com voc. Compreenda que foi um grande choque para ele chegar aqui e encontrar sua propriedade to mal 
administrada. Vai demorar um pouco para recuperar-se.
       Meio assustada, Ilita desceu as escadas de bano e metal, chegando ao hall. Agora havia ali quatro criados de libr, e o aspecto era bem diferente de quando 
ela chegara.
       Um dos criados a conduziu por um longo corredor at diante de uma porta enorme, de mogno, com maanetas douradas, que abriu para ela entrar na biblioteca.
       Ilita foi entrando timidamente, sentindo-se um pouco acanhada por estar usando ainda o vestido com que havia viajado, pois at o momento no tivera tempo 
de se trocar. 
       A biblioteca era enorme. As estantes de livros iam do cho ao teto, e nas altas janelas estava impresso o braso da famlia, em vidro colorido.
       O Marqus estava sentado  escrivaninha. Ele continuou sentado, e quando Ilita se aproximou disse,
       - Agora, Senhorita Marsh, gostaria que me explicasse o que faz aqui e quem a mandou.
       No era o que Ilita esperava ouvir, mas ela explicou,
       - Uma amiga da Marquesa recomendou-me como leitora, Milorde.
       - J me disse isso! - disse ele rudemente  - Mas no sou tolo, e vejo muito bem que uma empregada comum no tem a sua aparncia. Alm disso, nenhuma leitora 
iria cativar to rapidamente uma pessoa de gnio difcil como minha madrasta, a no ser que tivesse boas razes para faz-lo.
       - No estou compreendendo...
       - Ento vou deixar bem claro, estou pensando que cuida da Marquesa apenas porque sabe que ela  muito rica. Como tantas outras pessoas do seu tipo, espera 
conseguir "umas sobras". Muito bem, diga quais so realmente suas intenes, e vou pensar se valer a pena mant-la aqui ou se devo mand-la embora.
       - Oh, por favor, Milorde! - pediu Ilita, aflita  - Deixeme ficar!  muito importante para mim ficar com este emprego. Na verdade, no fiz... nada errado.
       - No acha que  errado ficar alimentando falsas esperanas a uma cega, se ela no vai voltar a ver? Mas  claro, isso depende da f que ela tem nas suas 
palavras e de quanto paga por essa cura milagrosa!
       A voz dele era sarcstica, e Ilita protestou,
       - No  nada disso! Como pode pensar uma coisa dessas? Claro que no estou tentando extorquir dinheiro da Marquesa! Por que deveria?
       Ela fez uma pausa e disse, mais calma,
       - Assim que a Marquesa falou comigo, senti intuitivamente que sua cegueira  apenas temporria.
       -  Como  possvel saber uma coisa dessas? Voc no  mdica ou ser que  uma charlat? Uma curandeira?
       -  impossvel explicar, Milorde! S posso dizer que tenho certeza de que dentro de algum tempo, no sei ao certo quando, a Marquesa voltar a enxergar. 
       - Nunca ouvi tanta tapeao. Est abusando de minha credulidade, e, se quer saber, no acredito nesta histria de clarividncia. Voc deve ter uma forte razo 
para armar tudo isso, e a  resposta, claro,  dinheiro!
       - Isso  um insulto, Milorde! - disse Ilita, erguendo a cabea  - Como no estou em posio de poder insult-lo, creio que a vantagem que leva sobre mim  
injusta.
       O Marqus ergueu as sobrancelhas.
       - Certamente,  uma pessoa cheia de surpresas, Senhorita Marsh. Que idade tem?
       Sem esperar por aquela pergunta, Ilita disse a verdade,
       - Tenho quase dezenove anos.
       -  muito jovem! No espera que eu acredite que no foi instruda por algum para dar essas respostas.
       - Ningum me treinou para dizer nada, Milorde. Fui apenas mandada para este Castelo por recomendao de uma amiga da Marquesa, e, na verdade, s cheguei ontem 
em Londres.
       - De onde veio?
       Ilita percebeu subitamente que estava sendo questionada e precisava ter todo o cuidado. Hesitando um pouco, ela respondeu,
       - Do... campo.
       - Em que parte do pas se treinam curandeiras? Ou onde  que se instruem jovens de sua idade para tapear mulheres excntricas como minha madrasta, que, em 
minha opinio, est mentalmente perturbada?
       - Isso no  verdade! Posso compreender que esteja profundamente magoado e que esteja preocupado pela situao em que encontrou sua propriedade, mas compreendo 
tambm que  insuportvel para a Marquesa ficar cega repentinamente sendo to linda e no tendo outros interesses seno sua prpria pessoa.
       - Est desculpando-a demais - disse o Marqus com amargor  - J que  to esperta, talvez possa convencer  Marquesa a mudar de idia e me ajudar arestaurar 
algumas partes deste Castelo, e a arrumar os jardins.
       - E, claro, no podemos esquecer dos cavalos - disse Ilita impulsivamente, uma vez que gostava muito deles.
       - Sim, os cavalos - concordou o Marqus  - Como os seres humanos, eles precisam de boa alimentao. No posso fazer isso, pois estou sem dinheiro. Como poderei 
pagar os cavalarios? Digo o mesmo do pessoal que cuida desta casa e da propriedade. Esta propriedade j foi o orgulho de meu pai e de todas as outras geraes antes 
dele.
       - No quero que alimente falsas esperanas, Milorde, mas acho que possoconvencer a Marquesa a ser um pouco mais razovel do que  no momento. Ela j me prometeu 
tentar no odi-lo, e isso certamente vai ajud-lo tambm a no odi-la.
       O Marqus ficou olhando para ela, atnito.
       - Afinal, quem  voc? Como pode, com essa aparncia, falar desse jeito?  No consigo compreender como uma mocinha que chegou aqui hoje e que encontrei ali 
nos degraus possa exercer tanta influncia sobre minha madrasta!  magia? Magia negra?
       Ilita riu.
       - Pode chamar de magia branca, se quiser, Milorde e, para falar com franqueza,  tudo muito simples.
       - Espero que me explique. Os mdicos e imagino que a Marquesa tenha consultado os mais importantes deles todos afirmam que no h esperanas no caso dela.
       - Mas eu falo de f. F  do que todos ns precisamos nesta vida, qualquer que seja nossa atividade e o que quer que nos acontea.
       Pensando no pai, ela prosseguiu,
       -  a esperana que mantm um explorador lutando para conquistar uma montanha inacessvel ou atravessar o deserto que parece infinito, sem ter uma trilha 
para seguir.  a esperana que faz os homens lutarem e morrerem por aquilo em que acreditam. No caso da Marquesa, sinto que foi meu pai quem me inspirou o que dizer 
a ela. Agora sinto que ela tem em seu corao uma esperana, e que tudo vai ser muito diferente no futuro.
       - No acredito! Voc no pode ser real. Isto no pode estar acontecendo! No na Inglaterra.
       No havia o que responder, e Ilita disse simplesmente,
       
       - Se no deseja mais falar comigo, Milorde, devo voltar para cuidar da Marquesa. A sra Lynton est fazendo isso por mim, mas ela tem muitas outras coisas 
para fazer.
       - Muito bem, Senhorita Marsh. Mas no se esquea de que ficarei observando-a. 
       Para ser franco, devo dizer que fala de um modo muito convincente, mas no me persuadiu inteiramente. No acredito que seja quem aparenta ser.
       - Est dizendo que, embora no confie inteiramente em mim, posso ficar no Castelo?
       - No que depender de mim,  exatamente isso. Mas se puder mesmo melhorar a situao entre mim e minha madrasta, ficarei muito grato.
       Ele olhou bem para Ilita e acrescentou,
       - Parece inacreditvel que eu esteja falando desse modo com uma completa estranha. Por outro lado, j viu e ouviu muita conversa desde que chegou a este Castelo, 
e pode fazer uma idia da situao em que me encontro. Sou o dono de uma das mais famosas propriedades da Gr-Bretanha. Entretanto, a renda que tenho no  suficiente 
para manter esta Propriedade como  preciso. A renda que vem de outras fontes diversas, no sei por que razo, meu pai deixou para sua jovem esposa. Sei que ele 
foi induzido por ela a fazer isso. Agora, sem esse dinkeiro, no posso manter esta casa, pagar os salrios, tocar a propriedade e fazer os reparos mais urgentes.
       - Compreendo. A situao  difcil. Mas, se eu puder ajudar, pode ter certeza de que o farei.
       - Muito bem, Senhorita Marsh. Aceito a sua ajuda e penso que darei uma trgua. Aceito a explicao de que veio para c apenas para trabalhar como leitora.
       Illita fez uma reverncia.
       - Obrigada, Milorde. Quando entrei aqui, tive medo de que fosse me despedir.
       - Por que isso a preocuparia tanto?
       - Porque no tenho para onde ir.
       - Como  possvel? Deve ter vindo de algum lugar para onde possa voltar.
       - No  bem assim. Mas no quero falar sobre isso. S quero ficar aqui e saber que estou segura.
       
       Com medo de que o Marqus fizesse mais perguntas, fez nova reverncia e caminhou para a porta. Ao passar por uma mesa, ao lado de uma estante, viu um quadro 
de p, encostado em alguns livros.
       Ela no tirou os olhos do quadro. No acreditava no que via. No podia ser real! Aquele quadro, muito bem pintado, reproduzia uma catarata onde ela havia 
estado com o pai, logo depois da morte da me.
       Para Illita, aquela havia sido a paisagem mais linda que j vira na vida, e, sem pensar em nada, ficou ali, magnetizada, observando o contorno escuro das 
pedras, a gua precipitando-se de muitas dezenas de metros de altura numa bacia natural revestida de pedras chatas, de onde se erguia uma nvoa que os raios de sol 
tornavam iridescente.
       Por um momento ela foi transportada ao passado. Absorta como estava, no notou que o Marqus saa da escrivaninha e aproximava dela. Surpresa, ouviu-o perguntar,
       - Est admirando esse quadro? Tem idia de onde foi pintado?
       - Em El Haufash, na beira do deserto - disse llita automaticamente.
       O Marqus ento perguntou, num tom que demonstrava o quanto estava atnito.
       - Como pode saber disso?
       - Sempre considerei este lugar o mais lindo de todos os que j vi em minha vida. Eu costumava levantar bem cedo, quando ainda estava escuro, e ia observar 
o sol nascer no horizonte. Seus primeiros raios tingiam a cascata de dourado. Era to lindo, que eu pensava que adentrara um reino encantado, sem igual.
       O Marqus, cada vez mais surpreso, parecia no encontrar palavras para expressar-se.
       - Est dizendo que j esteve mesmo nesse lugar?
       Ilita ento acordou do seu sonho e lembrou-se de que, para todos os efeitos, vinha de uma famlia de classe mdia que morava em uma das propriedades do Conde 
de Darrington. Agora era tarde demais para negar o que j dissera. 
       Ela virou para o Marqus e nos seus grandes olhos via-se o medo.
       - Sim, estive nesse lugar, mas, por favor... por favor, Milorde... esquea tudo o que acabei de dizer.
       - Por que deveria?
       - Por razes que no posso explicar no momento. Mas ningum aqui neste Castelo deve saber que eu j estive... na frica.
       - Por qu? O que h de errado nisso? Devo admitir, porm, que  certamente muito surpreendente encontrar uma mulher de qualquer idade, muito menos voc, to 
jovem, que tenha chegado a um lugar to distante, estranho e quase inacessvel.
       - Exatamente.  por isso que peo, por favor, no mencione o que ouviu  Marquesa... nem a ningum!
       Ela falava de maneira to desesperada que o Marqus perguntou,
       - Por que est to assustada? Quem a amendronta dessa forma?
       - Sim, estou assustada - disse ela num sussurro - e  por isso que suplico que, guarde segredo.
       - Sendo assim, no posso recusar seu pedido - disse o Marqus, fazendo um gesto com as mos  - No se preocupe, Senhorita Marsh. Apesar de achar este seu 
segredo muito curioso, ele est seguro comigo.
       - Obrigada... muito obrigada! - disse Ilita quase sem poder respirar.
       - Pode vir ver o quadro quando quiser. Tenho outros pintados pelo mesmo artista, que esteve na frica comigo.
       - Adoraria v-los! Seria maravilhoso voltar...
       Ela parou a tempo, pois estava para dizer mais coisas reveladoras sobre seu passado. 
       Agitada por tudo o que acontecera, ela agradeceu mais uma vez e saiu depressa da biblioteca, sem dar tempo ao Marqus de impedi-la.
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO V
       
       - Estou com medo! Posso cair! - exclamou a Marquesa.
       - Est segura - respondeu Ilita  - Segure firme no corrimo. Estou aqui ao seu lado. Agora pense em como est linda usando esse vestido de chiffon e descendo 
esta escada deslumbrante.
       A Marquesa sorriu e foi descendo vagarosamente, degrau por degrau, at chegar ao hall.
       - Agora sabe onde est - disse Ilita, levando a Marquesa para a sala de visitas  - Daqui a pouco vai ter uma surpresa.
       Glover fora correndo abrir a porta para elas, e a Marquesa entrou na sala, apoiando no brao de Ilita. Assim que atravessou a porta, a Marquesa exclamou,
       - Que agradvel! Nunca pensei que as flores tivessem um perfume to delicioso.
       - Os jardineiros trouxeram essas flores pela manh - disse Ilita, rindo, feliz  - Colheram rosas, lrios e todas as flores que encontraram que tivessem perfume 
agradvel.
       - Tenho certeza de que a sala est linda, mesmo sem poder v-la.
       Ilita levou a Marquesa at a janela, por onde entrava a luz dourada do sol.
       Muito delicadamente, fez a Marquesa sentar-se em uma poltrona e disse,
       - Agora quero que imagine como est linda, com o sol iluminando-a, fazendo suas jias resplandecerem, e as flores formando um perfeito pano de fundo para 
seus cabelos escuros.
       Ilita quase disse que era uma pena no haver mais ningum na sala para admirar a beleza da Marquesa. Mas sabia que desde o acidente a Marquesa recusava-se 
a receber quem quer que fosse.
       A Senhora Lynton dissera a Ilita que a princpio muitas pessoas vinham visitar a Marquesa, mas como ela sempre se recusara a receb-los, no voltaram mais, 
o que era uma pena. Ilita no sabia o que fazer para convencer a Marquesa a receber novamente os amigos. Durante os dois primeiros dias no Castelo, Ilita se empenhou 
em conquistar a confiana da Marquesa. Fazia tudo para ela acreditar  fervorosamente que recuperaria a viso.
       Pouco vira o Marqus. Informaram que ele trabalhava arduamente na propriedade, e que ficara muito aborrecido ao ver o estado deplorvel em que tudo se encontrava.
       Ilita no se esquecera de sua promessa de ajud-lo, mas temia aborrecer a Marquesa e impedir o progresso dela, ou faz-la voltar ao estado de revolta em que 
se achava antes.
       No s a Senhora Lynton, mas os outros criados contavam o que se passara logo que a Marquesa ficara cega.
       - Acredito - disse Glover com ar srio - que, se ela pudesse, demoliria este Castelo tijolo por tijolo, pedra por pedra, to fora de si ficou.
       - Posso compreender o que ela sentiu - respondera Ilita.
       - Ela quebrava e destrua tudo o que casse nas mos - continuara Glover  - No queria saber se era porcelana ou cristal, atirava o que fosse no cho ou contra 
a parede, como se quisesse destruir o mundo.
       Ilita podia imaginar como todos viviam amedrontados naquele Castelo, ainda mais sabendo que a Marquesa no hesitava em despedir quem tentasse  control-la. 
Seu dio era to grande porque os outros podiam ver e ela no.
       - Por que no mandaram chamar o Marqus? - perguntara Ilita  Senhora Lynton.
       - Era o que queramos fazer, mas desde que soube do testamento deixado pelo pai, beneficiando a Marquesa, ele partiu para muito longe, para alguma remota 
regio deste mundo. Creio que esteve na frica.
       Ilita lembrou do quadro que havia na biblioteca, o que reforava as suposies da governanta.
       Ilita teve muita vontade de voltar  biblioteca para ver os outros quadros que o Marqus prometera mostrar, mas temia que ele comeasse a fazer muitas perguntas.
       Naquele instante, Ilita abriu um livro que havia deixado sobre uma mesinha ao lado da poltrona onde estava a Marquesa e disse,
       - Como hoje est ainda mais linda e muito romntica, vou ler alguns poemas de Lorde Byron, Milady. Quero que faa de conta que os poemas foram escritos para 
a Senhora, imagine-se vivendo e movendo-se neles.
       - Quer mesmo me deixar convencida de minha beleza - disse a Marquesa, sorrindo  - No est dizendo tudo isso apenas para me deixar feliz?
       - Furo sobre a Bblia que  a pessoa mais linda que j vi, Milady. E agora que est sorrindo, a palavra linda  pobre para descrev-la!
       A Marquesa ps a mo no brao de Ilita e disse,
       - Voc  muito bondosa. Sei que acha a bondade uma coisa bela e a maldade uma coisa feia.
       - Isso mesmo! - disse Ilita, como se estivesse ensinando uma criana  - Agora oua isto, "Ela caminha em sua beleza, como a noite...
        Mal leu o primeiro verso, a porta abriu-se e o Senhor Glover disse,
       - Posso falar por um momento, Senhorita Marsh?
       - Claro.
       Ela ergueu-se da cadeira, deixou o livro de lado e disse em voz baixa  Marquesa,
       - Suponho que os empregados todos estejam preparando uma surpresa para a Senhora. No me demoro.
       Ela no esperou que a Marquesa respondesse e saiu apressada da sala, em direo ao hall. 
       Glover estava  porta.
       - Sinto muito aborrec-la, Senhorita, mas Lorde Grantham est aqui e, sabendo que a Marquesa desceu, pediu-me quase de joelhos para v-la.
       - Quem  Lorde Grantham?
       Glover olhou para o lado, sobre o ombro, depois disse,
       - No  segredo que ele amava a Senhora Marquesa mesmo antes da morte do Marqus. Como ele mora no parque, nas terras do Marqus, os dois se viam muito.
       - Suponho que depois do acidente a Senhora Marquesa tem se recusado a v-lo.
       - Exatamente. Ela sempre o mandou embora, at que ele no apareceu mais. Ele veio hoje ao Castelo porque soube que o Marqus voltou de sua viagem. O Solar 
onde ele mora pertence ao Marqus. Parece que uma parte do telhado desabou, e ele no sabe o que fazer.
       
       Ilita respirou fundo. Ocorreu-lhe uma idia um tanto ousada, mas que poderia muito bem funcionar. Tomando uma deciso rapidamente, ela disse a Glover,
       - Espere alguns minutos, depois diga a Lorde Grantham que entre na sala onde est a Marquesa, mas no o anuncie.
       Glover olhou para Ilita com uma expresso de quem entendia seu plano.
       - Farei o que me pede, Senhorita, mas posso perder minha cabea por desobedecer s instrues da Senhora Marquesa.
       Ilita sorriu e voltou  sala. Ela apanhou novamente o livro de poemas e, sem dar explicaes, continuou a ler.  Assim que acabou de ler o primeiro poema, 
a porta abriu-se e um homem entrou na sala. Ele era bonito, alto, e pelos leves toques de cinza em suas tmporas Ilita calculou que ele tivesse uns quarenta anos.
       Lorde Grantham ficou por um momento apenas olhando para a Marquesa, em seguida caminhou, resoluto, para ela. Ouvindo os passos, a Marquesa perguntou,
       -  voc, Terill?
       Lorde Grantham no respondeu. Continuou andando at ficar ao lado da Marquesa. S ento disse, com sua voz profunda,
       - Como pode estar to linda, Esm? Mais linda do que nunca.
       A Marquesa deu um grito.
       - Gerald!  voc! No tem o direito de estar aqui! V embora. No quero que ningum me veja!
       - Como pode ser to cruel, a ponto de me proibir de olhar para algum que tem o explendor do sol, que  to perfeita como as flores e que est to cruelmente 
fora do meu alcance como a lua?
       - No quero que ningum me veja - repetiu a Marquesa em voz baixa.
       - Por que no? Por que esconder tanta beleza? 
       Enquanto ele falava, Ilita afastou-se na ponta dos ps. Seu corao batia de aflio, ao pensar que a Marquesa poderia ficar zangada porque ela no impedira 
Lorde Grantham de entrar.Ele sentou ao lado da Marquesa e, pegando a mo, levou-a aos lbios. A Marquesa sorriu, parecendo distante. Entretanto, no disse mais para 
ele sair da sala.
       Chegando  porta, Ilita abriu-a silenciosamente.  
       Ao sair, ouviu Lorde Grantham dizer apaixonadamente,
       - Amo voc, Esm. Sempre a amei. Quero cuidar de voc e proteg-la. Como pode excluir-me de sua vida?
       Vendo que tudo corria bem, Ilita fechou a porta sem fazer barulho, inclinou-se contra ela e respirou aliviada. Impulsivamente, ela foi seguindo pelo corredor, 
com a inteno de ver o quadro da catarata. Ele ainda estava no mesmo lugar onde o havia visto. 
       Havia duas outras telas pintadas pelo mesmo artista, ainda sem moldura, encostadas em alguns livros. Uma das telas retratava o por-do-sol no deserto, e a 
outra um osis com palmeiras, cujas frondes eram agitadas pelo vento, o rabe que se achava acocorado  sombra delas tinha a cabea coberta por um albornoz, para 
proteger-se da areia arremessada pelo vento.
       As cenas eram parte to integrante de um perodo da vida de Ilita e estavam to fortemente impressas em sua memria que, admirando-as, ela voltou ao passado, 
ao seu tempo de criana, quando era feliz, no temia o futuro e sentia-se segura ao lado dos pais que amava. To concentrada se achava que no viu o Marqus entrar 
e s notou a presena quando ouviu a voz dele logo atrs de si.
       - Achei que voltaria aqui, mais cedo ou mais tarde.
       - Os quadros so to lindos! Ao v-los, sinto uma grande nostalgia.  como se tivesse saudades de minha ptria.
       - No espera que eu acredite que morou na frica.
       - Morei l h algum tempo.
       Na voz de Ilita havia ansiedade e lamento.
       - Fale-me sobre essa poca.
       Ilita caiu em si e viu que havia cometido novo engano. Voltando-se e olhando para o Marqus, disse,
       - Na verdade, vim procur-lo, Milorde.
       - Por qu? O que aconteceu?
       - Lorde Grantham est aqui. No momento, encontra-se na sala de estar com a Marquesa, mas na verdade ele veio procur-lo porque parte do telhado de sua casa 
desabou.
       O Marqus olhou para Ilita, to surpreso que parecia no acreditar no que acabava de ouvir.
       - Ser que est pensando o mesmo que eu? A Marquesa recebeu Lorde Grantham?
       llta suspirou.
       - Tive que arriscar. Sei que a Marquesa gostou muito de Lorde Grantham no passado, quem sabe poder querer ajud-lo.
       O Marqus afastou-se e foi at  lareira. Ficou ali, de p, olhando atentamente para Ilita, que estava de costas para os quadros do deserto.
       - No suspeito mais da Senhorita, Senhorita Marsh. Na verdade, estou assustado! Observando como essa sua cabecinha trabalha, cada vez mais me conveno de 
que no  uma pessoa real. Deve ser uma personagem de algum livro.
       Apesar de ele estar falando srio, Ilita riu.
       - Se sa de algum livro, poderei voltar para ele. Que modo maravilhoso de fugir, quando for necessrio!
       - Fugir do qu?
       Ela fez um gesto com as mos.
       - Fugir de tudo que me amedronte, ou de tudo que seja desagradvel, ou ainda de uma coisa que no queira fazer.
       - Do que tem medo?
       - De nada, no momento - disse ela depressa  - Estou feliz aqui, e tenho tudo o que preciso. Como j disse antes, s no quero que me mande embora.
       - Tenho certeza de que no corre esse perigo - disse o Marqus em tom seco.
       Ilita olhou para a porta e disse,
       - Talvez a Senhora Marquesa fique zangada comigo por ter deixado Lorde Grantham v-la.
       - Se ela tivesse que ficar zangada, ficaria logo que ele chegou. O que precisamos saber  se ele conseguiu convencer minha madrasta a mandar consertar o telhado 
do Solar.
       - Estou rezando para ela concordar em mandar fazer isso.
       - Que importncia tem isso para a Senhorita? - disse o Marqus olhando-a com interesse  - Chegou aqui h apenas trs dias. Como pode se preocupar com o que 
aconteceu no Castelo de Lyss ou com seus moradores?
       Ilita no olhou para ele e tampouco respondeu. Apenas olhou pela alta janela e admirou o parque, com suas rvores enormes, debaixo das quais viam-se coras 
andando sem medo.
       - Suponho - disse ela como se falasse para si mesma que me preocupo porque este Castelo  a primeira casa que tenho na Inglaterra, depois de ter estado fora 
durante tantos anos. Eu j havia me esquecido de como meu pas  lindo. No  s a imponncia deste Castelo que me atrai, mas tambm o jardim, com suas flores, o 
lindo lago, circundado por botes de ouro, e o sentimento de que, mesmo que no tenha morado aqui por tantos  anos, perteno a esta terra.
       O modo como ela falava era muito comovente, e depois de um momento o Marqus disse,
       - Sentindo o que sente pelo seu pas, por que me disse dias atrs que, se deixasse o Castelo de Lyss, no teria para onde ir?
       As palavras dele atingiram Illita como um jato de gua gelada, e ela lembrou ento de que no era ela mesma, e sim uma jovem chamada Marsh, que sempre havia 
morado na Inglaterra e que s conhecia o lugarejo onde sempre havia morado.  
       Seus olhos se encheram de medo.
       - Mais uma vez, Milorde, falei sem pensar, e peo que esquea o que eu disse.
       - Acho meio difcil. Fiquei interessado pelo que me disse, e gostaria de fazer centenas de perguntas, mas compreendo que tem medo de alguma coisa. A Senhorita 
me deixa intrigado e, ao mesmo tempo, frustrado.
       - Sinto muito. Acho que devo ir agora. A Marquesa deve estar precisando de mim. Seria bom que fosse  sala daqui a alguns minutos, Milorde, para ver Lorde 
Grantham. Assim saber qual a finalidade de sua visita.
       - Est me dizendo o que devo fazer? - disse ele, rindo, divertido  - At parece que est produzindo uma pea. Quem sabe  uma atriz! E deve ser das melhores, 
pois est me fazendo acreditar em tudo o que faz e em tudo o que diz!
       - Aceito isso como um elogio, Milorde. Na verdade, no sou nada interessante, vim  sua casa para trabalhar e ajudar no pouco que puder.
       - Eu no diria isso. E no  pouco o que j fez. Conseguiu que minha madrasta descesse, depois de ter se isolado por quase um ano. Acredito tambm que ir 
me ajudar Senhorita Marsh.
       - Estou tentando. Prometi, e estou tentando.
       Ela juntou as mos, demonstrando seu empenho. 
       O Marqus olhou para ela de um modo que a fez sentir-se tmida e corar.
       - Preciso ir - ela disse depressa.
       - Pode ir. Diga a Grantham que, se desejar me ver, venha at a biblioteca.
       Impulsivamente, Illita deu um passo, aproximando mais do Marqus e disse,
       - No. Tenho certeza de que  melhor Vossa Senhoria ir at a sala. Chegando l, pergunte a Lorde Grantham ou  Marquesa o que aconteceu.
       Ela fez uma pausa, como se estivesse refletindo, depois prosseguiu,
       - Um deles ir mencionar que o Solar precisa ser consertado, isso ser o mesmo que pedir a Vossa Senhoria que pague pelos reparos, como no pode fazer isso 
sem dinheiro, a Senhora Marquesa ter que oferecer sua ajuda.
       - Estou seguindo seu raciocnio, Senhorita Marsh. O que me surpreende  que consiga fazer planos to engenhosos e ao mesmo tempo to humanos. Mas quem sabe 
a Senhorita mesma no seja humana. Talvez seja uma deusa que desceu do Olimpo e tenha vindo disfarada, viver entre os homens, deixando-os perplexos e confusos.
       - O que acontecia neste Castelo j era suficiente para deixar qualquer pessoa confusa.
       O Marqus sorriu ao notar a rapidez daquela resposta. Mas, vendo que no podiam ficar ali conversando, como se nada muito importante estivesse acontecendo, 
ele disse,
       - V na frente. Precisamos acabar logo com isso. Se no tivermos sucesso, sempre haver a chance de tentarmos de novo.
       - Tenho o pressentimento de que seremos bem sucedidos.
       -  o mesmo tipo de pressentimento que a fez afirmar que minha madrasta voltar a enxergar?
       Ela acenou com a cabea, dizendo,
       - Sei que no acredita em mim, mas no posso evitar,  como se eu estivesse ouvindo algum me dizer o que vai acontecer.
       - Ento rezemos para que esse algum, seja ele quem for, no esteja enganado.
       Ilita no respondeu e saiu da biblioteca, indo para a sala de estar. No caminho ia rezando para que seu plano desse certo. Assim o Marqus acreditaria nela.
       "Ele pensa que sou uma embusteira", ela pensou, e surpreendeu-se por estar to interessada em querer que ele acreditasse nela. Abriu a porta da sala sem fazer 
barulho. No ouvindo vozes, sentiu uma pontada no peito, pensando que Lorde Grantham j havia sado.
       Viu ento que a Marquesa havia mudado de lugar e estava sentada ao lado de Lorde Grantham, no sof. Ele a abraava e beijava apaixonadamente. Os braos da 
Marquesa estavam ao redor de seu pescoo.
       Ilita tornou a fechar a porta cuidadosamente e voltou o mais depressa que pode para a biblioteca. Entrou de repente e encontrou o Marqus de p ao lado da 
lareira, como o havia deixado. 
       Ele a olhou, surpreso, e, sem pensar, Ilita correu para perto dele, eufrica.
       - Deu tudo certo. Tenho certeza de que tudo est bem. Lorde Grantham est beijando a Marquesa. Como poder ela recusar alguma coisa?
       Ela estendeu as mos para o Marqus e ele segurou-as, colocando-as sobre seu peito,
       - Agora sei - disse ele com uma voz profunda - que voc  uma feiticeira! 
       Devia ter sabido disso desde que voc chegou aqui, mas nunca pensei que uma feiticeira pudesse ser assim como voc.
       - No lancei mo de encantos nem de feitios. Apenas fiz o que achei mais natural.
       - Foi muito, muito esperta.
       Ele apertou as mos dela, e de repente Ilita percebeu que estavam muito prximos um do outro. Timidamente, ela retirou as mos e, temendo encontrar os olhos 
do Marqus, foi at  janela e ficou olhando para o parque.
       - Talvez possamos restaurar o que for preciso, e esta propriedade volte  perfeio que era no passado. E tudo graas a voc - disse o Marqus.
       - Prefiro pensar no que ser este Castelo no futuro. Voltar ao passado  reviver mgoas,  lembrar o que perdemos. O futuro nos acena com uma esperana, e 
 esperana o que estou tentando dar  sua madrasta.
       - Como pode, com to pouca idade, dizer coisas to profundas e to sensatas? Como pode fazer o que faz? No consigo entend-la. Precisa me dizer quem , se 
no, vou ficar mais intrigado e confuso do que j estou.
       Ilita riu.
       - No posso dizer mais do que j disse. Mas no se preocupe. Tenho o pressentimento de que logo, logo, vai estar to ocupado que no vai ter tempo de ficar 
fazendo conjeturas sobre meu passado, nem pensar em mim ou em meus problemas.
       - No seja modesta. Se estamos falando sobre o futuro e se est disposta a ajudar, trate de por mos  obra.
       - S o que quero fazer, se puder ficar aqui.
       Eles conversaram durante mais alguns minutos. Durante todo o tempo, o Marqus tentou apanhar Ilita distrada, para descobrir mais alguma coisa sobre seu passado, 
mas ela foi sempre esperta o bastante para fugir de suas armadilhas.
       Finalmente, ambos foram para a sala de estar. Os olhos de Ilita cintilavam, e seu rosto estava corado pela alegria que sentia, no s porque a Marquesa estava 
feliz, como porque achara fascinante estar com um homem inteligente, de raciocnio to vivo. Nunca tivera a chance de conversar com um homem como o Marqus.
       Ilita estava adorando viver no Castelo, e sua nica preocupao era evitar que o Marqus descobrisse sua verdadeira identidade. Se isso acontecesse, ela teria 
que ir embora. No que ela se julgasse importante, isso a tia fizera questo de frisar que no era mas pertencia  famlia DarringtonCoombe, muito respeitada e de 
grande importncia social. 
       Envergonharia a todos se fosse descoberta fazendo-se passar por uma obscura Senhorita Marsh, de classe mdia.
       "Acontea o que acontecer, jamais podero descobrir quem eu sou. "
       No mesmo instante, lembrou da tia ameaando manda-la para o convento,  fora. Mas no momento ela estava feliz, pensando na Marquesa. Assim devia ser.
       Ilita entrou na sala e seu corao pulsou forte ao ver que a Marquesa e Lorde Granthan continuavam sentados no sof. Agora ele segurava as mos dela.
       Ao ver o Marqus e Ilita entrarem, Lorde Grantham levantou e estendeu a mo para cumprimentar o amigo.
       - Vim at aqui para v-lo, Lyss, mas tive a sorte de ter a companhia de sua madrasta, enquanto o esperava.
       - Estamos todos felizes por ela sentir-se bem e querer descer - disse o Marqus.
       - Oua, Terill - disse a Marquesa  - O pobre Gerald est com problemas. O teto de sua casa desabou. Se chover, o Solar estar arruinado.
       - Isso  terrvel, mas no vejo como posso ajud-lo.
       - No seja ridculo! - disse a Marquesa  - O telhado tem que ser consertado imediatamente! Algum tem que salvar o Solar.
       A Marquesa hesitou, como se no quisesse capitular facilmente. Ilita foi para o lado dela.
       - Tenho certeza de que o Solar de Lorde Grantham  muito antigo e lindo - disse Ilita  - Ele no pode, naturalmente, perd-lo, nem permitir que uma casa to 
linda se estrague. Temos que preservar o que  belo, no Milady?
       A Marquesa segurou a mo de Ilita, demonstrando que compreendera o significado especial da palavra "belo".
       Ento disse, como se forasse as palavras a sarem de seus lbios,
       - Por favor, Terill, faa o que puder por Gerald! Enquanto faz isso, por favor, veja tudo o que  preciso consertar nesta vasta propriedade. Faa o que quiser 
e como quiser. No sinto foras para cuidar disso ainda.
       O Marqus respirou fundo. Olhando para ele, Ilita viu-o endireitar os ombros, parecendo mais alto ainda. Ento ele disse,
       -  mesmo verdade o que est dizendo?
       - Claro. De acordo com Gerald e, evidente, com a Senhorita Marsh,  muito mais importante para mim me movimentar, fazerme bonita, cercar-me de conforto, beleza 
e alegria do que ficar deitada, detestando tudo e me aborrecendo com tetos que desmoronam, canos enferrujados e casas em runas.
       - Isso mesmo! - disse Lorde Grantham  - Deve pensar que tudo o que a cerca  to lindo como voc!
       - Obrigada, Gerald.
       Lorde Grantham pegou a mo da Marquesa e levou-a aos lbios.
       - Prometo que, assim que o Solar ficar consertado, vou convenc-la a ser a primeira a visit-lo.
       - Obrigada! Quem sabe at l eu poderei no s ouvir, como v-lo.
       Lorde Grantham apertou a mo dela com carinho e disse com sinceridade,
       - Ficarei rezando para que isso acontea!
       Depois que Lorde Grantham saiu, Ilita levou a Marquesa para cima, pois viu que ela estava muito cansada. Tendo ficado meses na cama, mesmo o menor exerccio 
fsico era exaustivo. Alm disso, ela havia tido emoes demais para apenas um dia. As duas no conversaram sobre o que acontecera. 
       A Marquesa sentou confortavelmente na cama, reclinando-se nos travesseiros de fronhas limpas, que cheiravam a lavanda.
       - Gerald me ama! - disse a Marquesa  - Tenho certeza Je que o amor faz parte de sua lista de coisas belas.
       - O amor  a mais importante delas! Beleza  amor. Amor  beleza.
       - Muitos homens me amaram, mas acho que nunca amei nenhum deles.
       - Deve dar amor para receb-lo. Pode acreditar que, fazendo isso, ficar ainda mais linda do que j .
       A Marquesa riu. Foi um riso solto, de felicidade.
       - Voc e Gerald me fazem sentir que meus olhos no so to importantes e que posso ser feliz mesmo sem enxergar. Esforo-me por acreditar nisso.
       - Deve crer que, amando e sentindo-se amada, estar cercada de amor, e ser feliz, assim, a vida voltar a seus olhos.
       Ilita conversou com a Marquesa durante mais algum tempo.  Depois, notando que ela adormecia, deixou-a aos cuidados de uma criada, caso precisasse de alguma 
coisa.
       Desceu as escadas, sem saber ao certo para onde ir. O importante era que tudo ao seu redor parecia banhado pela luz do sol e que no precisava ter medo de 
nada.
       A porta da frente achava-se aberta, e ela foi caminhando por uma alameda que levava ao jardim, com suas cercas vivas de teixos e seus canteiros floridos. 
Continuando a caminhada, ela chegou ao lago cercado de vegetao silvestre. Havia ali outra pessoa, que tambm viera admirar a beleza da gua prateada, onde alguns 
cisnes nadavam serenamente, e em cuja superfcie as ris e os botes de ouro se refletiam. 
       Essa pessoa, de cabelos escuros, achava-se entre os arbustos, e estava de costas para Ilita.  Observando melhor, ela viu que era o Marqus. Pensando que ele 
talvez quisesse ficar sozinho, achou melhor se afastar. Tarde demais. 
       O Marqus virou-se e, vendo-a, segurou pelo brao, puxando-a para seu lado, ficando ambos  beira da gua.  Por um momento ele nada disse, mas ela perturbou-se 
com a mo dele apertando-a e pela proximidade em que se achavam.
       - Como pode fazer tanto por mim? - perguntou o Marqus  - Salvou-me de uma situao de desespero, de depresso em que me encontrava, e fez com que me fosse 
devolvido o que j supunha perdido para sempre.
       Ilita no sabia o que responder, e manteve em silncio. 
       O Marqus segurou o queixo e a fez encar-lo.
       - O que estar voc pensando, com esses olhos to inocentes, esse rostinho lindo e essa cabecinha que parece encerrar a sabedoria de Salomo? O que posso 
fazer por voc, para demonstrar o quanto sou grato?
       No querendo dizer nada que no devesse, Ilita respondeu depressa,
       - No quero nada... Claro que no quero nada. Sinto-me feliz e perfeitamente recompensada, porque agora pode fazer tudo o que precisa no Castelo, para torn-lo 
to lindo como sempre foi.
       -  apenas isso o que quer? Estou disposto a oferecer metade do que possuo, ou pelo menos uma jia brilhante e valiosa que, se no quiser usar, poder vender, 
conseguindo por ela dinheiro suficiente para garantir seu futuro.
       Ilita virou o rosto de modo que ele no pode mais segurar o queixo.
       - Por favor, no estrague tudo. At o momento, tudo aconteceu como em um conto de fadas. Oferecendo-me recompensas materiais, torna o que fiz horrvel... 
No quero seus presentes nem sua gratido, quero apenas v-lo feliz.
       - Por que se interessa pela minha felicidade? Afinal, sou apenas um estranho.
       Ilita fez um gesto com as mos e disse,
       - O tempo  imaterial. Podemos conhecer uma pessoa por anos e anos e essa pessoa continuar sendo para ns um enigma, mesmo vivendo uma perto da outra, estamos 
distantes. Por outro lado, s vezes vemos uma pessoa pela primeira vez e temos a sensao de que a conhecemos h uma eternidade.
       Ela falava to serenamente e to absorta que nem percebeu que o Marqus deu uns passos, ficando bem junto dela.
       -  isso o que sente a meu respeito? Se for assim, mesmo que eu relute em admiti-lo,  exatamente o que sinto a seu respeito.
       Ao dizer isso, ele puxou Ilita para seus braos, e antes que ela pudesse perceber o que acontecia, ou mesmo antes que pudesse tomar flego, seus lbios se 
uniram aos do Marqus.
       Ele a beijava de modo suave e ao mesmo tempo possessivo. 
       Ento, Ilita sentiu o corpo todo vibrar, dominado por emoes que jamais experimentara antes. 
       O Marqus a abraou mais forte, seus lbios tornaram-se mais insistentes e mais exigentes.  Para Ilita, tudo era to estranho e to inesperado, que se sentia 
como se o mundo estivesse de cabea para baixo e o cu danasse ao seu redor.
       Desde que vira o Marqus, estivera consciente de sua figura marcante. 
       A princpio, ele a amedrontara, mas agora aquele homem maravilhoso tomava posse de seu ser, e o fazia de tal forma que ela j no era ela mesma, no mais 
se pertencia, era toda dele. 
       O Marqus parecia sentir o mesmo e, erguendo a cabea, ficou olhando embevecido para Ilita, como se no acreditasse que tinha em seus braos uma criatura 
real. 
       Ilita no pode falar nem se mexer, pois ele a beijava novamente.
        Foram  beijos longos, apaixonados e sem pressa, que a fizeram sentir que sua alma no mais pertencia e que o mundo havia parado.
       
       
CAPTULO VI
       
       No dia seguinte, sentindo-se tmida, Ilita evitou o Marqus.  Consciente de sua posio naquela casa e lembrando dos beijos ardentes que ela e o Marqus haviam 
trocado, achou que no havia agido bem e que sua me teria desaprovado seu comportamento.
       Ao mesmo tempo, os beijos do Marqus haviam sido a coisa mais maravilhosa que j experimentara em sua vida. Em suas fantasias, desde criana, sonhara ser 
beijada daquela forma, por um homem como o Marqus.
       Ansiara tambm por beijos como aqueles no seu tempo de convento, quando suas colegas contavam que iam se casar e que seus futuros maridos eram homens muito 
importantes. Ela queria amar, queria viver de amor, como haviam vivido seus pais. Para ela, o amor era o que havia de mais perfeito e de maior significado no mundo. 
O amor era algo superior  posio social.
       Como poderiam coroas, ttulos, at mesmo dinheiro, ser mais importantes do que o sentimento? Para ela o importante era o que sentia em todo o seu ser, era 
o xtase que a arrebatava apenas ao ver o homem que amava.
       Ilita lembrava-se de que os olhos de sua me brilhavam e seu rosto iluminava-se refletindo o amor que sentia pelo marido. Era testemunha de que o amor transformava 
as pessoas.
       Assim tambm era o amor que sentia desde que os lbios do Marqus a haviam aprisionado, s ao se lembrar dos braos dele envolvendo-a, sentia-se liberta do 
medo. Nada mais havia a temer.
       Ento ela soube que no poderia mais mentir para ele. Se o Marqus voltasse a perguntar quem ela era, no tinha mais como ocultar a verdade. Teria que assumir 
sua verdadeira identidade. E, fazendo isso, teria que deix-lo.  Enquanto essas idias passavam como lampejos em sua mente, seu corpo estremecia de xtase.
       Ilita relembrou o que o Marqus dissera na beira do lago,
       - Como isto pode estar acontecendo comigo? Como o simples fato de estar ao seu lado me faz sentir as mais extraordinrias emoes?
       Ela no encontrara palavras para responder e, com medo de que ele fizesse a pergunta que tanto temia, dera um gemido e, antes que o Marqus pudesse impedi-la, 
fugira dele, correndo.
       Atravessara o jardim e subira para seu quarto. L chegando, atirara-se na cama, afundando a cabea no travesseiro.
       O que acontecera fora maravilhoso e perfeito demais.  Jamais esperava se apaixonar pelo dono do Castelo, sendo uma empregada, cuja posio era superior apenas 
 dos criados de categoria mais elevada.
       Inteligente como era, Ilita raciocinou que, se o Marqus a amava realmente, como dizia amar, no haveria impedimento para que eles se casassem e que fossem 
felizes como haviam sido seus pais.
       Lembrava-se de que sua me contara certa vez que o pai dela, av de Ilita, sonhava para a filha um timo casamento, com um dos pares do reino, de posio 
na Corte e grande fortuna. Mas Elizabeth preferira casar-se com o filho de um Conde que no herdaria a fortuna da famlia.
       Ilita dissera para a me,
       - Vov no devia ficar zangado, pois papai  um Cavalheiro e um nobre. Dinheiro no  importante.
       A me rira diante do raciocnio da filha e explicara que, mesmo sendo filho de um Conde, no tinha grande representao social, pois as probabilidades de 
ele herdar o ttulo eram remotssimas, o av queria para a filha um casamento melhor em termos financeiros, por ser muito ambicioso e por achar a filha bonita.
       - Voc no  bonita, mame,  linda! - corrigira Ilita.
       - Eu fazia questo de tornar-me linda quando vi o quanto seu pai me amava - respondera a me  - E quando ele dizia que eu era maravilhosa, minha emoo era 
tamanha que eu parecia flutuar nas nuvens, acima da terra!
       Com voz sonhadora a me continuou a contar  filha como ela e o marido eram felizes e como viviam apaixonados, achando que tanto amor compensava a perda de 
algumas coisas materiais.  " isso que quero", pensou Ilita. "Mas talvez o Marqus tenha outra opinio."
       Mesmo que o Marqus a amasse, seu crebro ordenaria clara edistintamente que a mulher que escolhesse para ser sua esposa deveria ter a mesma importncia social 
dele. Portanto, jamais pensaria em pedir a uma Senhorita Marsh para ser sua esposa e tornar-se, assim, a Marquesa de Lyss.
       Ocorreu ento a idia de que poderia contar a ele quem era realmente, e a situao seria outra. 
       Mas novas dificuldades surgiriam, o Marqus ficaria horrorizado por ela ter aceitado trabalhar em posio to inferior, em segundo lugar, a futura Marquesa 
de Lyss no poderia ficar naquele Castelo sem uma chaperon.
       "Tenho que ir embora", pensou Ilita.
       Mas era penoso demais deixar o Marqus. O pior era que no tinha para onde ir, e certamente no poderia contar com a ajuda da tia. Ela no estava brincando 
quando dissera que a encarceraria em um convento de onde jamais poderia sair.
       "Como poderia suportar viver completamente isolada do mundo, enclausurada entre quatro paredes, fazendo oraes o tempo inteiro, sem ter vocao para isso?"
       Depois de ficar muito tempo deitada, ela sentou e procurou raciocinar mais claramente.
       "O que devo fazer, papai?"  Perguntou  ela, sentindo que o pai estava ao seu lado e compreendia a situao em que se encontrava.
       Levantou e foi at  saleta, onde um criado de libr acabava de entrar, trazendo o jantar.
        Ilita no tinha fome, e ficou imaginando que o Marqus devia estar jantando sozinho. Ao retirar o ltimo prato, o criado disse,
       - O Senhor Marqus pediu-me para perguntar-lhe se poder v-lo na biblioteca depois que a Senhora Marquesa se recolher.
       - Por favor, diga ao Senhor Marqus que estou muito cansada e vou deitar-me mais cedo, a no ser,  claro, que o assunto seja urgente.
       - Direi a ele.
       Quando o criado deixou a saleta, Ilita sentiu que fechava para si prpria as portas do paraso, mas sabia que fazia o que era correto.
       Na manh seguinte a Marquesa s falava em Lorde Grantham, e passou horas preparando-se para receb-lo. Ele prometera vir v-la ao meio dia.
       - Espero que at Gerald chegar, Terill j tenha ido ver o Solar e j saiba o que ser preciso fazer - disse a Marquesa.
       - Lorde Grantham  um homem muito charmoso - disse Ilita  - No tome como atrevimento de minha parte, mas acho que se casar com ele.
       -  o que ele quer. J se cansou de implorar que eu me case com ele, mas como, se estou cega?
       - Isso seria um empecilho, se se amam bastante? - perguntou Ilita, suavemente.
       - Claro que  um empecilho! Como poderei viver feliz ao seu lado, mesmo que o ame, se preciso ser guiada de um lugar para outro? No poderei comer em frente 
ao meu marido, pois no suportaria saber que ele estaria reparando na sujeira que fao. Como nosso casamento sobreviveria se eu me visse cercada s de trevas e, 
como voc diz, de coisas "feias"?
       - No acho que tenha razo, embora compreenda o que sente.
       - Compreende-me porque  mulher tambm. Mas como eu poderia estar despreocupada ao lado dele, sem saber se estaria ou no em ordem? Sei que sou uma figura 
grotesca, quando fico estendendo as mos e tateando para procurar ou pegar alguma coisa.
       -  muito triste que pense assim. Lorde Grantham a ama tanto!
       - Se eu pudesse ver, pediria a Terill para arrumar a casa da fazenda para ns.  uma linda Manso, e foi construda no reinado da Rainha Ana. Sempre me imaginei 
morando nessa Manso.   Na verdade, ela no  grande nem to imponente como este Castelo, mas  maravilhosa e aconchegante. Meu marido dizia que a Manso, com os 
cmodos revestidos de papis de madeira e cortinas bordadas  mo, seria um ambiente perfeito para a minha beleza.
       Novamente entregue ao desespero, ela bradou,
       - De que adianta falar de tudo isso? Estou cega! Mesmo que voc me assegure que um dia voltarei a ver, quanto tempo terei que esperar? Suponha que eu recupere 
a viso quando j estiver bem velha, cheia de rugas, de cabelos brancos, de que me vai adiantar? Que adiantaria eu me olhar no espelho e me ver como uma bruxa a 
quem nenhum homem amaria?
       - No fique assim - disse Ilita, consolando-a  - Apenas acredite que tudo vai dar certo. O seu conto de fadas vai tornar-se realidade, e ir morar na Manso. 
Meu pai me disse, certa vez, que os rabes tm um modo que podemos chamar de mgico para conseguir o que desejam. Eles fazem mentalmente um quadro do que querem 
conseguir e fixam esse quadro na mente, olhando-o com o que chamam de "olho interior", no tiram esse quadro da mente enquanto seu desejo no se realizar.
       A Marquesa ouvia com a maior ateno, e Ilita prosseguiu,
       - No seu caso, imagine-se morando na Manso, veja-se andando pelos quartos, arrumando os quadros, ajeitando as almofadas, pondo flores nos vasos, est linda 
e pode ver! Fixe esse quadro em sua mente.
       - Creio que isso vai mesmo acontecer! Oh, meu Deus,  exatamente o que desejo.
       - Ento no desista. Veja claramente o que deseja que acontea. E acontecer.
       A nova criada que a Senhora Lynton havia arranjado para substituir Jones entrou no quarto para vestir a Marquesa com um de seus lindos vestidos.
       Ilita guiou a Marquesa para descer as escadas. Lorde Grantham j estava esperando. Voltando ao seu quarto, Ilita encontrou a Senhora Lynton.
       - Tenho uma surpresa para a Senhorita, Senhorita Marsh.
       - O que ?
       - A costureira praticamente terminou de fazer dois vestidos para a Senhorita, e gostaria que os experimentasse quando tiver um tempinho livre.
       Ilita deu um grito de alegria.
       Quando ela chegara ao Castelo, a Senhora Lynton vira os cortes de musselina e achou da mais fina qualidade. A governanta explicou que havia uma costureira 
permanente no Castelo, que poderia fazer os vestidos. 
       Ilita ficou muito feliz, pois talvez no tivesse muito tempo.
       A costureira, uma Senhora j de idade, mas muito ativa, fora mandada depois ao quarto de Ilita e prometeu fazer os vestidos o mais depressa possvel.
       Agora a velha Senhora fazia as provas dos vestidos, e a Senhora Lynton olhava, admirada. Ilita adorou os modelos. Eram to lindos, que at pareciam vindos 
de uma elegante loja de Bond Street.
       Um dos vestidos foi feito com a musselina bordada de raminhos verdes e florzinhas brancas. Uma fita de cetim, presa  cintura, era amarrada, formando um bonito 
lao. Vestida nele, Ilita parecia muito jovem e etrea, como uma figura que surgisse por entre folhagens e arbustos em flor.
       O outro vestido foi feito com a musselina branca estampada de rosinhas cor de rosa, uma faixa tambm cor de rosa passava pela cintura e caa em cascata, na 
parte de trs, sobre a saia franzida, as mangas eram bufantes e curtas, o decote amplo e bem baixo.
       Olhando-se no espelho, Ilita desejou que o Marqus a visse usando aqueles lindos vestidos.   Em seguida, afastou esse pensamento, achando que deveria esquecer 
o Marqus e o que havia acontecido no dia anterior.
       Mas nem sempre se pode impedir os pensamentos, e Ilita passou o dia todo sem tirar a imagem do Marqus da mente.
       Ela sabia que, tendo toda a autoridade para fazer o que fosse preciso na vasta propriedade, ele vivia muito atarefado, com milhares de coisas para providenciar 
e com dezenas de pessoas para atender.
       "Com certeza ele nem se lembra de mim", ela pensou.
       Ao mesmo tempo, achava impossvel ele tambm no pensar mela, depois do que acontecera entre ambos. Os dois estavam unidos por um lao invisvel, que atraa 
um ao outro e que era muito mais forte do que o bom senso.
       "No devo v-lo. Devo me manter fora do seu caminho!" Ela repetia essas palavras para si mesma dezenas de vezes. 
        tarde, Lorde Grantham voltou para tomar ch com a Marquesa, depois de ela ter descansado. 
       Ilita estava livre e pensava no Marqus. Ele devia estar na biblioteca, imaginando que motivo teria ela para no querer v-lo.
       Ela foi para seus aposentos e sentou na saleta. Teria que tomar uma atitude. Decididamente, no poderia se envolver emocionalmente com o Marqus.
       Interrompendo seus pensamentos, foi ver a Marquesa. Esta j subira as escadas ajudada por dois criados de libr e estavaem seu quarto, radiante de felicidade.
       - Passou momentos agradveis, Milady?
       - Momentos maravilhosos! Tenho vivido no cu, depois de ter experimentado o inferno.
       Ilita chamou a criada para trocar a Marquesa, e esta continuou,
       - Gerald vir me ver amanh. Vai ter que me ajudar, Senhorita Marsh, preciso arranjar alguns bons argumentos que ele aceite, e no fique mais implorando, 
exigindo que eu me case com ele imediatamente.
       Ela deu um profundo suspiro.
       - Deus sabe que  o que mais quero, mas no ouso aceitar o pedido dele, pela nossa felicidade.
       Ilita j havia sugerido que a Marquesa comesse muita verdura, ela explicara que os africanos que viviam perto da gua eram mais fortes e saudveis do que 
os que viviam no deserto.
       Ela tambm havia dito que mel era um timo alimento.
       Sendo uma pessoa dcil, a Marquesa seguia o regime sugerido por Ilita. 
       Esta, por sua vez, receando ter se enganado quanto  sua afirmao de que a Marquesa voltaria a ver, achou melhor tentar todos os meios. O tempo passava, 
e a Marquesa envelhecia, cada dia de cegueira era um dia perdido. Por isso, Ilita sugeriu que ela consultasse novamente um especialista.
       - De que adiantaria? - perguntou a Marquesa  - Todos os mdicos que me examinaram no me deram esperanas. Nenhum deles descobriu a causa desta minha cegueira. 
Um dos especialistas chegou a dizer que era de fundo emocional. No tenho a menor vontade de voltar a ver esses mdicos. 
       Confio em voc! Sei que est desejando que eu volte a ver, e um dia abrirei os olhos e verei o mundo como via antes.
       - Desejo ardentemente que volte a enxergar! Rezo para isso, acredito nisso!
       A Marquesa estava com tal bom humor depois que Lorde Grantham se fora, que no quis se trocar nem descansar.
       Finalmente, depois do jantar, Ilita a convenceu a mudar de roupa e ir deitar, mas ela continuava eufrica e desperta.
       - Leia para mim - ela pediu  - Afinal, voc veio para c com essa finalidade. Quero pensar em coisas diferentes.
       - Est bem. Quer que eu continue lendo os poemas de Lorde Byron ou preferiria que eu lesse cada noite um captulo de um romance?
       - Tanto faz. S no quero pensar em mim. Leia algo que me ajude a esquecer pelo menos por um pouco de mim mesma.
       Ilita foi buscar um livro na sala anexa ao quarto e comeou a ler. Foi s muito tarde que a Marquesa fechou os olhos e entregou-se a um sono agitado.
       Ilita saiu do quarto na ponta dos ps. 
       Ao sair, encontrou a Senhora Lynton.
       - Gostaria de ajud-la, Senhorita Marsh, mas no sei como. Vi que nem jantou - foi dizendo a governanta, seguindo Ilita para sua saleta  - vou mandar trazer 
alguma coisa para comer. Deve estar faminta.
       - A Marquesa dormiu s agora. Mas no se preocupe, no tenho fome.
       - Hoje tudo deu errado. O Senhor Marqus ia jantar em casa, mas na ltima hora resolveu sair. O chef deve estar de mau humor. Se h coisa que deteste  uma 
mudana de ltima hora ou um cancelamento. Ele se orgulha de sua comida!
       - E tem razo!  uma comida deliciosa!
       Depois de comer um pouco, pois a Senhora Lynton insistira em trazer o jantar, Ilita lembrou que a governanta dissera que o Marqus havia sado. Portanto, 
poderia descer e ir at  biblioteca ver os quadros do deserto de que tanto gostava.
       Estava ansiosa para rev-los, mas, ao mesmo tempo, decidida a no ver o Marqus. Era melhor evitar os lugares onde ele mais ficava quando estava no Castelo.
       A biblioteca estava iluminada com lampies. Ao entrar, Ilita deu um pequeno grito de desapontamento. As telas no estavam ali.
       Ela ficou imaginando onde o Marqus as teria posto. com certeza, mandara emoldurar. Era triste ir embora sem ver a cascata que significava tanto para ela, 
por recordar-lhe a infncia. Nisso, a porta abriu e o Marqus entrou.
       Ele vestia um traje de noite e estava extremamente elegante. Fora tolice demais no prever que quela hora ele voltaria para casa. A verdade era que, inconscientemente, 
ela desejara aquele encontro.
       - Sinto muito... No quis ser importuna..  - disse ela timidamente  - S vim ver os quadros.
       - Achei que era isso mesmo que devia estar fazendo quando os criados me disseram que a viram entrando na biblioteca. Tenho uma surpresa para voc, e, ao mesmo 
tempo, quero sua opinio. 
       Eles saram da biblioteca e foram andando pelo longo corredor. 
       O Marqus abriu a porta de um cmodo onde ela nunca havia estado. Era um quadrado, muito bonito. Assim que entrou, Ilita viu as trs telas sobre o deserto, 
j com moldura, penduradas em uma das paredes.
       Nas outras paredes havia tambm muitos outros quadros de animais exticos, estranhos, pintadas por George Stubbe, e outros, de artistas que ela no conhecia 
e cuja tcnica era muito original. 
       Havia quadros de tigres, onas, lees, e tambm cenas do deserto. At a moblia da sala combinava com as telas.
       - Costumamos chamar este aposento de Sala Oriental explicou o Marqus  - Achei que voc se sentiria to bem aqui como eu.
       Ele sorriu para ela e, olhando-a nos olhos, disse,
       - Est ainda mais linda do que ontem! Como pode desaparecer daquela maneira, sabendo que eu precisava muito falar com voc?
       - Voc... me assustou!
       - Assustei voc?
       O argumento no satisfez o Marqus.
       - Por favor...  - disse Ilita  - Pensei muito sobre o que aconteceu e, embora tudo tivesse sido to maravilhoso... a coisa mais maravilhosa que j aconteceu 
em toda a minha vida... Por favor, no deve me beijar novamente.
       - Por que no?
       -  Por que, se o fizer, terei que partir. Como j disse, no tenho para onde ir.
       - Ento pensa que a deixarei ir embora? No posso ficar sem voc. No pensou na Marquesa? Como poder sobreviver se voc no estiver ao lado dela?
       - Quero ficar. Quero isso desesperadamente, mas... Por favor, compreenda que  um erro estarmos juntos e querer beijar-me.
       Os criados logo saberiam o que est havendo entre ns. Teremos que nos tratar formalmente.
       - Est querendo dizer que espera que eu a trate como se fosse apenas a empregada que l para minha madrasta? Como posso fingir que no h nada entre ns?
       - Por favor... Tente compreender - Ilita suplicou.
       
       - Estou tentando, mas seria muito mais fcil se me dissesse o que est escondendo. Por que tem medo de assumir esse amor que vejo em seus olhos e que senti 
em seus lbios?
       - No! No posso fazer isso! Por favor, no me pressione. No posso dizer nada a ningum.
       O Marqus ficou olhando para ela, depois disse,
       - Est tornando as coisas cada vez mais difceis para mim. No sei o que fazer. Oh, minha querida, no compreende? Estou apaixonado por voc como nunca pensei 
que pudesse ficar por mulher alguma, muito menos por uma que mal conheci e sobre quem nada sei.
       -  o que precisa ter sempre em mente - disse Ilita em voz baixa  - Nada sabe a meu respeito, por isso  impossvel querer alimentar o amor que pensa sentir.
       - No penso que a amo. Tenho certeza disso! - insistiu o Marqus  - Amo-a com todo o meu corao, essa  a verdade!
       Ele fez uma pausa, depois prosseguiu,
       - Sei que tambm me ama! Nenhuma mulher tem os lbios to suaves como os seus, nem to doces e to inocentes. Ao beij-la, soube que me entregava seu corao. 
Isso  verdade!  No pode negar!
       - Sim...  verdade - sussurrou Ilita de maneira hesitante  - Mas, mesmo assim, no posso contar meu segredo. Estou desesperada, com medo de no poder ficar 
aqui, como gostaria.
       - Quero que fique. S precisa ser corajosa e honesta comigo! Sabe que pode confiar em mim, pois jamais serei indigno de sua confiana, e nunca a magoaria!
       - Tinha medo de que dissesse exatamente isso - disse ela com voz dbil  - Foi por essa razo que sempre quis mant-lo longe de mim. Fui at a biblioteca porque 
pensei que no voltasse to cedo.
       - Pois voltei mais cedo justamente para ficar perto de voc. Pensei o dia todo em voc, mesmo que isso possa parecer incrvel.
       Ele deu um profundo suspiro.
       
       
       - Eu pensava que nada poderia ser mais importante do que consertar tudo o que estava estragado por causa do abandono em que ficou este Castelo com minha ausncia 
prolongada. Eu dava ordens para que arrumassem uma coisa e outra nas casas da propriedade, via os tetos que precisavam de reparos, fui atrs dos velhos empregados 
que haviam sido despedidos. Em meio a tudo isso, porm, sua imagem no saa de meu pensamento. Eu via seu rosto diante de meus olhos, sentia o calor de seus lbios 
contra os meus!
       Havia uma nota de paixo em sua voz que fez o corao de Ilita palpitar dentro do peito.
       O Marqus aproximou-se dela, sua voz era muito baixa e irresistvel quando ele disse,
       - Diga-me querida, o que est escondendo de mim? Por maior que seja seu problema, partilhe-o comigo.
       - Gostaria de fazer isso - disse Ilita, sentindo-se extremamente infeliz - mas no posso... no posso dizer o que quer saber.
       O Marqus viu que ela estava  beira das lgrimas.
       Como era um homem experiente, conhecedor das mulheres e muito inteligente, comeou a falar sobre os quadros que representavam cenas do deserto, e a aflio 
de Ilita desapareceu.
       Ela ficou ouvindo, embevecida, o Marqus contar o que acontecera depois da leitura do testamento do pai. Ele ficara desesperado, pensando que, se ficasse 
sob o mesmo teto que a madrasta, seria difcil no a estrangular com as prprias mos, pois sabia que ela havia enganado o pai quando ele estava doente, fora de 
si.
       Se o pai estivesse com o uso da razo, certamente deixaria mais dinheiro para o filho manter as propriedades em ordem.
       O Marqus tinha certeza de que a madrasta arquitetara um plano para  prejudicar o enteado, de quem jamais gostara. Era evidente que o velho Marqus havia 
assinado uma clusula extra no testamento, sem saber o que fazia.
       O Marqus no podia provar nada, e sara do Castelo assim que terminara o funeral.
       Ele fora para Londres, indeciso. No sabia se devia procurar os advogados do pai e lutar legalmente contra a Marquesa, ou se seria melhor aceitar a situao 
e procurar alguma outra atividade que o mantivesse afastado da propriedade, que, apesar de estar em seu nome, no tinha condies de manter. 
       O pior  que perdia tambm sua autoridade.
       Nessa poca ele encontrou, em seu clube, um velho amigo que iria partir para a frica em um ou dois dias.
       - Vamos fazer umas caadas - dissera o amigo - e explorar uma parte do deserto e das montanhas Rif. vou aproveitar a viagem para pintar algumas telas para 
a minha coleo. Voc sabe como gosto de fazer isso.
       O amigo do Marqus era na verdade um pintor talentoso, mas recusava-se a pintar o que era convencional e o que os crticos de arte admiravam.
       Esse pintor tinha seu prprio mtodo de usar tinta e crayon. O Marqus admirava muito o trabalho do amigo, mas os crticos em geral consideravam-no muito 
avanado, ousado demais para que suas obras fossem levadas a srio.
       No foi difcil para o Marqus concordar em partir com o amigo, e dois dias depois embarcou para a frica, deixando para trs a raiva e a amargura, que foram 
desaparecendo vagarosamente assim que comeou a se distanciar da Inglaterra.
       Voltou quase um ano mais tarde, porque sentiu que precisava rever sua ptria e saber o que acontecia por l.  Foi assim que chegou inesperadamente em seu 
Castelo e encontrou Ilita, com toda a bagagem, esperando diante da porta principal.
       - Fiquei to assustada ao v-lo! - disse Ilita quando ele chegou a essa parte da narrativa.
       - Eu no sabia o que estava acontecendo. Antes de deixar este Castelo, mantnhamos quatro lacaios no hall, prontos para abrir a porta imediatamente. Quando 
um visitante chegava, sendo esperado ou no, sempre era estendido um tapete vermelho nos degraus.
       Ilita riu.
       - Voc tambm me pareceu muito estranha com todos aquels bas ao seu redor, assustada, de olhos arregalados debaixo daquele seu chapeuzinho.
       Agora eles voltavam a falar sobre si mesmos, Ilita sabia que seria um erro, e resolveu ir para seu quarto.
       - Estou cansada. Tive um dia longo e ativo, mas nunca vi sua madrasta to feliz.
       - Reze para que ela se case com Grantham, assim no teremos que nos preocupar com ela - disse o Marqus.
       - Se ela voltar a ver, quer morar na Manso que fica na fazenda. Ela a acha muito bonita.
       -  maravilhosa! - concordou o Marqus  - Posso mostr-la amanh, se quiser.  uma das casas mais lindas que h em nossas terras. Tem um jardim encantador, 
que no mudou nada desde que foi feito por uma de minhas ancestrais, enquanto seu marido estava na guerra, com Marlborough.
       - Adoraria v-la - disse Ilita impulsivamente.
       Depois lembrou-se de que no seria aconselhvel ficar sozinha com o Marqus.
       Ela levantou e, embora relutando, o Marqus levantou-se tambm.
       - Vou lev-la at seus aposentos.
       - No se preocupe. vou sozinha, obrigada.
       - Quero cuidar de voc - disse ele com voz grave e profunda  - Quero proteg-la, mas torna as coisas difceis para mim.
       Os dois subiram as escadas juntos.
       O quarto do Marqus ficava do outro lado do corredor, mas ele levou Ilita at o quarto dela, deixando-a apreensiva, pensando que ele iria beij-la antes de 
se despedir.
       Precisava impedir o Marqus de fazer isso, embora ansiasse por seus beijos.
       Assim que ela chegou ao seu quarto, parou em frente  porta, disposta a dizer apenas boa noite. Ento os dois ouviram um grito.
       No havia dvidas de que o grito vinha do quarto da Marquesa. Ilita atravessou o corredor correndo e abriu a porta, ficando petrificada com o que viu.
       As velas ardiam sobre a penteadeira, e ao lado desse mvel havia duas pessoas. Ilita reconheceu a Senhorita Jones e viu tambm um homem.
       Ilita ficou parada olhando para os dois, e a Marquesa deu outro grito.
       - No! No vo levar as minhas jias! No posso ficar sem elas!
       O Marqus entrou no quarto logo depois de Ilita, e perguntou,
       - Com os diabos, o que est fazendo aqui, Sheldon? 
       
       Sheldon virou-se para o Marqus, e Ilita, quase sem flego, viu que ele tinha um revlver na mo.
       - No vai me impedir, Milorde! Despediu-me sem referncias, e agora vou cuidar de meu futuro!
       - No seja tolo, Sheldon! Se roubar as jias da Marquesa, acabar sendo apanhado e ficar um bom tempo na cadeia.
       - No oua o que ele diz! - gritou a Senhorita Jones  - Temos que pensar em ns mesmos. Vamos sair com as jias. Fugiremos do pas antes que nos peguem. Vamos! 
Atire nele! Atire na perna, assim no poder nos seguir. Ningum vai ouvir nesta parte da casa!
       A voz dela era estridente e trmula, as palavras saam atropeladas.
       O Marqus estava ainda ao lado de Ilita e pensava em um modo de desarmar seu ex-secretrio, sem receber um tiro. 
       Subitamente, a Marquesa ergueu-se da cama e agarrou o brao de Sheldon.
       Pego de surpresa, ele ergueu o revlver e deu uma forte coronhada na cabea dela, deixando-a desacordada.
       O Marqus, gil e rpido, desferiu um soco no queixo de Sheldon, jogando-o sobre a penteadeira, fazendo um barulho e derrubando os objetos que estavam sobre 
ela, inclusive os castiais.
       Sheldon escorregou e ficou esparramado no cho, semi consciente, enquanto a Senhorita Jones gritava histericamente.
       O Marqus pegou o revlver de Sheldon e puxou o ex-secretrio, deixando-o sentado no cho.
       Nesse nterim, Ilita correu para acudir a Marquesa, que se achava cada ao lado da cama.
       Ilita tentou ergu-la, querendo carreg-la nos braos como se fosse uma criana.
       A Senhorita Jones tentava fazer Sheldon voltar a si. Depois de algum tempo, ele abriu os olhos e viu o Marqus de p na sua frente.
       - Agora, oua bem - disse o Marqus  - vou dar-lhe uma chance, saia daqui e suma de minhas terras. Se tornar a v-lo em minha frente, vou mandar prend-lo 
por tentativa de assassinato e roubo. Est bem claro?
       Sheldon apenas resmungou qualquer coisa, dando a entender que seguiria as ordens do ex-patro. com a ajuda da Senhorita Jones, ergueu-se, cambaleando.
       O Marqus no teve dvidas de que Sheldon estava meio bbado, mas consciente o bastante para no tirar os olhos do revlver que agora estava apontado para 
ele.
       - Saia! Fora daqui! - ordenou o Marqus  - Pode considerar-se um felizardo por eu estar sendo clemente!
       No havia outra alternativa para os dois malfeitores seno sarem dali o mais depressa possvel. 
       Mancando e apoiado na Senhorita Jones, Sheldon caminhou at a porta, sem ao menos olhar para trs.
       Somente depois de ter certeza de que os dois cmplices j estavam a uma boa distncia, foi que o Marqus ps o revlver sobre a penteadeira e foi ver a madrasta.
       Ele notou que ela estava apenas desacordada, por causa do golpe que havia recebido, mas estava bem. Ela continuava no cho, mas sua cabea apoiava-se no colo 
de llita, que no tivera foras para coloc-la na cama.
       O Marqus ergueu a madrasta nos braos e acomodou confortavelmente no leito.
       - Sabe se h um pouco de brandy por aqui? - ele perguntou a llita.
       - Acho que h um pouco numa garrafa de cristal, na sala , ao lado.
        Illita correu para a sala e abriu a porta. Felizmente, havia um pouco de bebida numa garrafa de cristal, sobre uma bandeja, em cima de um mvel, logo  mo. 
Ela esperava que fosse mesmo brandy.
       Mais do que depressa, pegou a garrafa, um copo e levou para o Marqus.
       Ele despejou uma pequena quantidade da bebida forte no copo e levou aos lbios da madrasta.
       Vendo que ela j recobrava a conscincia, disse em voz baixa,
       - Est tudo bem. No h nada que possa assust-la. Apenas beba um pouco disto.
       Ele encostou o copo bem junto aos lbios dela, e a Marquesa tomou um pequeno gole.
       
       - Tome mais! - ele ordenou  - Vai sentir melhor! Ela estava fraca demais para protestar, e bebeu o restante do copo, estremecendo ao sentir o lquido forte 
queimando a garganta.
       Gentilmente, o Marqus apoiou a cabea da madrasta nos travesseiros.
       Illita correu para o outro lado da cama e segurou a mo da Marquesa, confortando-a, depois afastou uma mecha do cabelo escuro que caa sobre a testa.
       Apesar do seu estado de torpor, a Marquesa parecia lindssima.
       Ainda falando com um pouco de dificuldade, ela perguntou,
       - Eles... roubaram minhas... jias?
       - No levaram nada - respondeu o Marqus  - Posso garantir que nunca mais aparecero por aqui. Sinto muito por tudo o que aconteceu.
       - Sua cabea est doendo muito? - perguntou Ilita.
       - Estou bem..  - disse a Marquesa de maneira hesitante. De repente, ela deu um grito, o que fez Ilita dar um salto.
       - Estou vendo! - exclamou  - Posso ver seu rosto! Posso ver!
       
       
       
       
       
       
       
       
       
CAPTULO VII
       
       Illita acordou sobressaltada, achando que havia perdido a hora. Olhando para o relgio, ao lado da cama, deu um grito, de fato, havia dormido demais.
       Tocou a sineta, e quando uma das criadas veio atender, perguntou depressa,
       - A Senhora Marquesa j acordou? Estou muito atrasada!
       - Est tudo bem, Senhorita Marsh. A Senhora Marquesa nem se mexeu. Dei uma olhada no quarto dela umas duas vezes, e ela dorme tranquila como um bebe. No 
precisa se preocupar.
       Illita suspirou, aliviada, e recostou-se nos travesseiros.  J passava das trs da manh quando eles conseguiram ir deitar-se na noite anterior, pois haviam 
ficado to eufricos com a maravilhosa notcia de que a Marquesa podia ver, que no paravam de conversar.
       A princpio, a Marquesa distinguia apenas as luzes e alguma coisa que estivesse bem prxima dela.  Depois, gradativamente, continuou a passar os olhos pelo 
quarto, e  medida que ia distinguindo as peas e os objetos, dava gritos de alegria.
       - No deve se cansar, nem fazer tudo depressa demais! - aconselhou Illita.
       Mas era impossvel para os trs no ficarem jubilosos e emocionados pelo que acontecera.
       O Marqus achava que havia sido o golpe que a madrasta levara na cabea que devolvera a viso, da mesma forma que havia sido uma pancada, ao cair do cavalo, 
que a deixara cega.
       - Sheldon no merecia escapar impune! - disse o Marqus.
       - Deixei-o ir apenas para evitar um escndalo. Eu sabia que no gostaria de apresentar uma queixa, Esm, pois teria que ser interrogada.
       A Marquesa estremeceu.
        - No! Claro que no!
       - No deve tocar nesse assunto com ningum, Esm disse o Marqus  - Ser melhor para todos ns guardarmos segredo sobre o ocorrido. Se os criados ficarem 
sabendo do que aconteceu, a notcia vai espalhar-se, e logo estar nos jornais.
       - Tem razo. Precisamos evitar que isso acontea - concordou a Marquesa.
       O Marqus insistiu em que brindassem ao feliz acontecimento com champanha, e desceu para buscar uma garrafa. Ele e Ilita sentaram-se na cama da Marquesa, 
e os trs beberam  sade e felicidade dela.
       Ela estava linda, com o rosto radiante. Seus grandes olhos passeavam incessantemente pelo quarto, como querendo certificar-se de que podia mesmo ver tudo.
       Ilita pensou em Lorde Grantham, e achou uma pena ele no estar ali naquele momento para ver a exultao da mulher que amava.
       Como se Ilita se tivesse comunicado mentalmente com o Marqus, este disse,
       - A nica pessoa para quem pode contar o que aconteceu ser Grantham. Ele compreender, e tenho certeza de que no contar a ningum nada do que lhe disser.
       - Tambm tenho certeza disso - respondeu a Marquesa. 
       Ilita pegou o copo vazio da Marquesa, deixou-o sobre o criado mudo e ficou segurando a mo dela.
       - Tenho certeza, minha querida, de que devo tudo a voc - disse a Marquesa, agradecida  - Se no tivesse me forado a pensar de outro modo acerca de tudo 
e se no tivesse me ensinado a ter esperana, a esta hora j estaria morta de tanta depresso.
       - No diga isso! - disse Ilita  - Tudo mudou, e deve esquecer as coisas tristes do passado.
       - Tem toda a razo - concordou o Marqus.
       - Agora, deve descansar os olhos e tentar dormir - continuou Ilita  - Haver muitas coisas lindas para ver amanh cedo. Deve dizer  Senhora Lynton que percebeu 
que estava enxergando quando abriu os olhos logo ao acordar e pode ver a luz do sol filtrando-se dos lados das cortinas.
       - Oh, que bom, verei o sol! Poderei ver o sol! - disse a Marquesa num tom de verdadeiro xtase.
       Ela estendeu a mo para o Marqus e disse boa noite. Para surpresa e alegria de Ilita, ele inclinou-se e beijou o rosto da madrasta.
       - Voc demonstrou muita coragem ao segurar Sheldon ele disse  - E muito obrigado por ter me permitido fazer tudo o que  preciso nesta propriedade. A primeira 
coisa que providenciarei  deixar em ordem a Manso que tanto ama.
       A Marquesa sorriu e apertou a mo dele.
       - Acho que essa casa est esperando por mim h muito tempo!
       Quando Ilita se deitou nessa noite, fez uma fervorosa prece de agradecimento por tudo ter dado to certo, no somente para a Marquesa, mas tambm para seu 
enteado.
       Seu prprio problema, porm, continuava sem soluo. Agora, j bem desperta, ela pensava em como poderia continuar a esconder do Marqus sua verdadeira identidade.
       Sentia to amedrontada com as consequncias, caso ele chegasse a descobrir quem era ela, que mantinha firme seu propsito de resistir a ele. Mesmo que ele 
continuasse a implorar para ela contar seu segredo, teria que se manter irredutvel.
       Mas ela o amava to ardorosamente, que seria difcil recusar o que ele lhe pedisse.
       A porta de seu quarto abriu e uma criada entrou, trazem do uma bandeja com o caf da manh.
       - Achei que devia estar to cansada como a Senhora Marquesa, por isso trouxe-lhe o caf da manh para tomar na cama.
       - Quanta bondade, Emily! - Ilita exclamou  - Desse jeito, acaba me deixando mal acostumada e muito preguiosa.
       - Bem, merece ter algum que cuide de voc - disse Emily - Todos l embaixo dizem que ningum fez mais pela Marquesa do que voc.  um verdadeiro prazer ver 
todo este grande Castelo voltar ao que era antes. Tudo est brilhando. O cho est to limpo que se pode comer nele!
       Ilita riu, feliz. Sabia, mesmo sem Emily nada dizer, que todos no Castelo comentavam que, graas  sua influncia sobre a Marquesa, a autoridade do Marqus 
havia sido restabelecida.
       Como sua me costumava dizer, no se podia guardar um segredo em meio a tantos criados. Os empregados do Castelo, em sua maioria, j trabalhavam e moravam 
ali h tantos anos que era muito difcil no se envolverem com tudo o que acontecia. Emily ps a bandeja com o caf da manh ao lado da cama e saiu. Ilita viu na 
bandeja um envelope dirigido a ela. Seu corao saltou dentro do peito quando reconheceu a letra do Marqus. Rasgou depressa a borda do envelope e leu,
       "Preciso ir a Londres. Por isso estou partindo bem cedo. Espero voltar ainda esta noite, ou o mais tardar amanh cedo. Cuide-se bem.  L. "
       Ilita leu e releu o bilhete. Embora no houvesse intimidade alguma no que o Marqus escrevera, ela sentiu vibraes vindas daquela folha de papel, e a emoo 
que sentia era como se estivesse sendo beijada.
       "Amo o Marqus!", ela pensou. "Mas tenho que lutar contra esse amor!"
       Ilita sentiu que no podia deixar pensamentos tristes dominla depois do verdadeiro milagre que havia acontecido. Aquele era um dia muito feliz. 
       Por isso no se surpreendeu quando, de repente, Emily entrou correndo no quarto, gritando entusiasmada,
       - A Senhora Lynton disse para vir depressa, Senhorita Marsh! Ela est no quarto da Senhora Marquesa e disse que aconteceu um milagre. A Marquesa est enxergando!
       Ilita tentou parecer muito surpresa, e foi depressa para o quarto da Marquesa, onde encontrou no s a governanta, mas diversas criadas, todas ao redor da 
cama da patroa.
       Cheias de alegria, elas ouviam a Marquesa contar que, ao acordar, pudera ver a luz do sol.
       - Sei que isso d grande alegria, Senhorita Marsh - disse a Marquesa.
       - S posso agradecer a Deus, que ouviu nossas preces disse Ilita calmamente.
       Ela no quis deixar a Marquesa exercitar-se muito, pois sua recuperao era ainda muito recente. A Marquesa, porm, sentiase eufrica, e quis descer as escadas 
sem auxlio de ningum e ir dar um passeio no jardim.
       Ilita sugeriu que ela mandasse, por um dos cavalarios, um bilhete a Lorde Grantham, convidando-o para o almoo.
       Por um momento, a Marquesa olhou para ela. Depois disse,
       - Ah, que bom! Agora posso comer com as pessoas que amo, em vez de ficar tateando, sozinha, na escurido.
       - Tudo voltar a ser como antes - disse Ilita - mas aconselho que veja um especialista. Ele poder dar algumas sugestes.
       - No preciso de especialistas. Acatarei suas sugestes, Senhorita Marsh. Meus olhos e minha sade esto bem porque tenho seguido o regime de verduras e mel 
que me sugeriu.
       
       - Gostaria que minha me a ouvisse dizer isso! - respondeu Ilita  - Ela sempre acreditou que a alimentao correta  melhor do que remdios.
       Ilita teve vontade de continuar contando que sua me ensinava as mulheres rabes que viviam em tribos, no deserto, a alimentarem seus filhos corretamente, 
mas lembrou-se a tempo de que era a Senhorita Marsh, que sempre vivera na Inglaterra.
       " muito difcil lembrar-me o tempo todo de que no sou Ilita", pensou. 
       Em seguida, fez planos para ir ver novamente os quadros na sala oriental, assim que pudesse.
       Mais tarde, j na sala, ela sentia-se no s perto de seus pais, mas tambm do Marqus. Ao sair dali, subiu as escadas, ansiando por v-lo. A saudade que 
sentia dele era to intensa que provocava uma dor quase fsica no peito.
       A primeira coisa que o Marqus fez ao chegar a Londres foi ir ao seu clube, onde almoou. Antes de ir  casa da Condessa de Darrington, como havia planejado, 
vendo que ainda era cedo, foi at o mercado de cavalos, o Tattersall's.
       Haveria uma venda especial de cavalos no dia seguinte, e ele queria deixar seu lance para a compra de trs puros-sangues que seriam o comeo do novo estbulo 
a ser construdo no Castelo.
       Assim, que deu o nome, lembrou-se de que era graas a Ilita que podia gastar tanto dinheiro.
       Parecia incrvel que aquela jovem pudesse ter mudado tanto sua vida, da mesma forma que mudara a de sua madrasta.
       Um estranho desejo de estar com Ilita o invadiu. Mas ele havia ido a Londres por uma razo especial. As informaes que obtivesse da Condessa de Darrington 
seriam extremamente importantes para eles dois.
       Depois de ter despedido Sheldon, o Marqus encontrou na escrivaninha do ex-secretrio, entre uma miscelnea de documentos, contas e cartas, a carta que a 
Condessa de Darrington havia escrito para sua madrasta, sugerindo que contratasse uma pessoa como leitora.
       Na carta, a Condessa de Darrington havia elogiado demais uma tal Senhorita Marsh, e afirmara que j a havia empregado tambm. Assim que leu a carta, o Marqus 
soube que essa era a chave de tudo. Pela Condessa de Darrington, iria descobrir por que Ilita vivia to assustada e por que no confiava nele, recusando-se a falar 
sobre seu passado.
       Um pouco antes das quatro, a hora das visitas sociais, ele chegou  Manso Darrington.
       A porta da frente estava aberta, e havia no hall trs criados de libr. 
       Como um dos criados pegasse o chapu do Marqus e, sem perguntar o nome, o conduzisse para o andar de cima, o Marqus percebeu que a Condessa estava recebendo 
amigos naquele dia.
       As damas da sociedade londrina costumavam reservar uma tarde por semana para abrir a casa aos amigos, reunindo-os no salo para um ch.
       Para esse ch a dona da casa no sabia se teria uma centena de convidados ou apenas uma dzia, mas todos eram bemvindos.
       O Marqus subiu as escadas sem pressa, e quando chegou ao salo, no viu nenhum convidado. Era bvio que ainda era muito cedo para a reunio.
       Vendo um bonito arranjo de flores criadas em estufa, perto de uma porta, ele chegou mais perto para admir-las, quando ouviu vozes.
       Pensando encontrar a Condessa na sala vizinha, de onde vinham as vozes, foi andando sossegadamente pelo corredor. Seus passos eram abafados pelo macio tapete 
Aubusson. Quando viu na parede um quadro valiosssimo, de Canaletto, parou para admir-lo, e imaginou como combinava com dois outros quadros do mesmo pintor que 
possua no Castelo.
       Ento ouviu um homem dizer, com raiva,
       - Mas voc no poderia ter sido informada disso antes de a notcia sair nos jornais?
       - Veio um homem aqui, ontem - respondeu uma voz de mulher  - Lembro-me agora de que me disseram que ele era advogado, mandei um dos criados dizer que estava 
ocupada e que o receberia amanh.
       - Isso foi um grande erro! Ele pode entrar em contato com a garota.
       - No h a menor chance. S ns dois sabemos que ela est no Castelo de Lyss.
       O Marqus j ia entrar na sala de onde vinham as vozes, mas parou e ficou gelado.
       - Bem, deve dar um jeito nisso. Fez muito mal em t-la mandado embora.
       - Como eu ia saber? - respondeu a mulher. 
       O Marqus teve quase certeza de que era a Condessa de Darrington.
       - No podia adivinhar que a madrinha dela, que sempre achei uma intrometida, fosse lhe deixar uma imensa fortuna!
       - Os jornais dizem que so milhes! 
       A Condessa riu.
       - Ento iremos ajudar Ilita a gast-los!
       - Haver dezenas de pessoas doidas para fazerem isso. Toda a famlia Darrington-Coombe cair como um enxame de abelhas sobre o pote de mel!
       - Pode ter certeza de que ser assim mesmo. Mas eu sou a tutora at que Anthonny atinja a maioridade, o que s acontecer daqui a sete anos. E muita coisa 
acontecer antes disso.
       - Lgico! Uma tutora tem controle total sobre sua tutelada - disse o homem vagarosamente, como se estivesse falando consigo mesmo.
       - Claro! Fiz questo de explicar a Ilita, quando a mandei embora, que ela devia fazer exatamente como havamos combinado, seno iria arrepender-se amargamente.
       - Ameaou-a?
       - Disse que a deixaria enclausurada num convento.
       - Meu Deus! Ainda bem que, dadas as circunstncias, no fez nada disso!
       - Pare de me assustar. A garota est trabalhando para a Marquesa de Lyss. Como a Marquesa est cega, provavelmente no se interessa pelas notcias de jornal, 
e no sabe de nada. Teremos tempo de ir at o Castelo e trazer Ilita de volta.
       - Acho que tem razo - disse o homem evasivamente -  No. Espere!
       - O que foi, Paul?
       - Tive uma idia! Uma idia estupenda! No deve trazer Ilita de volta, por enquanto.
       - O que sugere, ento?
       - Que eu me case com ela!
       - Casar-se com ela? - disse a Condessa, incrdula.
       - Posso conseguir uma licena especial. S ento iremos ao Castelo e, como tutora de sua sobrinha, pode ordenar que ela se case comigo. Depois que estivermos 
casados, terei toda a fortuna dela.
       - Mas, Paul, meu querido...
       - No fique aborrecida. Entre ns dois tudo continuar como sempre foi. Voc jamais quis abrir mo de seu ttulo para se casar comigo, um obscuro baronete. 
Teremos dinheiro sem limites e continuaremos a nos encontrar, a nos divertir e a ir aonde quisermos. Poderei muito bem deixar minha esposa cuidando dos filhos. 
       Depois de uma pausa, a Condessa disse, hesitante,
       - Acha mesmo que  a melhor coisa a fazer?
       - Claro que . Nossas dificuldades sero resolvidas. Dinheiro quer dizer poder. Com  tanto dinheiro, poderemos conhecer o mundo todo.
       A Condessa deu um profundo suspiro.
       - Espero que d certo.
       - Lgico que vai dar certo! No esquente sua cabecinha por causa disso. Deixe tudo por minha conta. Vou tratar de obter uma licena especial amanh de manh. 
Depois iremos para o Castelo de Lyss.
       - Parece uma idia maluca - disse a Condessa em voz baixa  - Mas no deixa de ser muito prtica.
       - Muito prtica e muito agradvel. Agora vamos esconder este jornal. S espero que nenhum dos hspedes convidados que teremos esta tarde tenha lido a notcia.
       O Marqus no esperou para ouvir mais nada.
       Sem fazer barulho, voltou-se, atravessou o salo e desceu as escadas apressadamente.
       Depois de apanhar o chapu com o criado, saiu para o sol da tarde.
       Olhando o relgio, viu que era muito tarde para fazer o que queria, portanto teria que ficar em Londres at a manh seguinte.
       A primeira coisa que fez, porm, foi comprar um jornal.
       
       Illita achou que o sol da tarde que entrava pelas janelas dasala oriental estava muito mais dourado e muito mais radiante do que jamais estivera.
       Sabia que seu entusiasmo era porque dentro de duas horas, talvez antes, o Marqus estaria de volta e ela iria v-lo.
       Havia esperado ardentemente que ele voltasse na noite anterior, mas teve que ir deitar sem v-lo. Sonhou com o Marqus e acordou com uma sensao irreprimvel 
de felicidade.
       Na mesa  sua frente havia uma cesta de flores que os jardineiros haviam trazido e que eram cultivadas nas estufas. Quando ela desceu, enquanto a Marquesa 
tomava seu banho, viu que os jardineiros estavam fazendo um lindo arranjo de flores no salo de recepes.
       Elogiou os jardineiros, que se empenhavam em deixar o Castelo lindo desde a chegada do Marqus. Disse tambm que, agora que a Marquesa podia ver a beleza 
da natureza, era ainda mais agradvel ver o Castelo todo enfeitado.
       Entre as flores que os jardineiros haviam colhido, ela escolheu algumas para enfeitar a sala oriental. Selecionou lrios brancos e coloridos e vrias orqudeas.
       Uma das variedades de orqudeas que escolheu tinha as flores em forma de estrela, e em cada haste havia mais de uma dezena de flores.
       Segurando as orqudeas na mo, ela no pode deixar de pensar em como estavam combinando perfeitamente com o vestido novo que usava.
       A costureira havia terminado de faz-lo, e depois de vesti-lo, ao olhar no espelho, Ilita pensou que nem parecia a mesma garota com roupa de colegial que 
chegara quele Castelo h to pouco tempo. Ela ficou imaginando se o Marqus iria ou no notar seu vestido novo.
       Provavelmente notaria. S o pensamento de que o Marqus iria admir-la fez com que um rubor sbito viesse s faces.
       Ela olhava as orqudeas que tinha nas mos, quando a porta se abriu, virou casualmente, pensando que fosse algum dos criados, e deu um grito de alegria.
       Era o Marqus que estava de p  porta, elegantssimo em seu traje de viagem. Ele havia voltado muito mais cedo do que ela pudera imaginar.
       - Oh, j est de volta! Que bom! - ela exclamou, no podendo conter a alegria.
       Ele fechou a porta e caminhou em sua direo. Havia uma expresso em seu rosto que ela no conseguia decifrar. Tambm botou que ele segurava um jornal.  
       - Quero falar com voc, Ilita!
       - Naturalmente, quer saber sobre a Senhora Marquesa. Ela est muito bem, e sua viso est perfeita como sempre foi.
       - No momento, no estou interessado em minha madrasta, mas em voc!
       Ela olhou para ele e deu um pequeno grito.
       - O que aconteceu? H alguma coisa errada?
       - No h nada errado, pelo menos penso que no vai achar isto errado. Quero que leia esta notcia.
       Ele estendeu o jornal para Ilita enquanto falava. Ela no podia estar mais surpresa.
       O jornal j estava dobrado no lugar certo, e ela leu,
       "IMENSA FORTUNA DEIXADA PARA A FILHA DE UM DOS PARES DO REINO
       Acabamos de ser informados de que a Senhora Grace Van Holden, que morreu no ms passado, viva de um texano multimilionrio, deixou toda a sua fortuna constituda 
de muitos milhes de libras esterlinas, para sua afilhada, Lady Ilita Darrington-Coombe.
       A Senhora Van Holden era filha de Lorde Downshire. Lady Ilita  a nica filha do falecido Conde de Darrington, que morreu no ano passado, no exterior.
       Acredita-se que Lady Ilita encontra-se na Inglaterra no momento. Os advogados da Senhora Van Holden esto tentando entrar em contato com ela."
       O Marqus no tirou os olhos de Ilita enquanto ela lia a notcia.
       Acabando de ler, ela olhou para ele e disse,
       - Como soube que essa herdeira era eu?
       O Marqus chegou bem perto dela, pegou o jornal de suas mos e disse calmamente,
       - Oua, Ilita. Fui ontem a Londres para ver sua tia. Descobri que foi ela quem a recomendou para trabalhar para Esm. Eu precisava saber por que voc vivia 
to amedrontada e qual era o segredo que se empenhava tanto em manter.
       Ilita emitiu um som indistinto e abaixou os olhos, mas no disse nada. O Marqus continuou,
       - Enquanto eu estava na Manso Darrington, ouvi sem que rer uma conversa entre um homem e sua tia. Esse homem contou a Lady Darrington o que voc acaba de 
ler nesse jornal. Sua tia e esse homem planejam vir hoje aqui, com uma licena especial de casamento. Como ela  sua tutora, a quem voc deve obedecer, ir for-la 
a se casar com esse homem.
       Por um momento Ilita apenas fixou no Marqus os olhos arregalados, que pareciam encher todo o rosto. Depois deu um grito de horror.
       - Por favor, esconda-me! - ela pediu, desesperada. Preciso esconder-me... Tia Sybil no pode encontrar-me!
       Ela teria sado correndo  procura de um lugar para se esconder, caso o Marqus no a agarrasse firmemente.
       Com muita calma e voz profunda, ele disse,
       - Tenho uma idia muito melhor do que essa de procurar um esconderijo. E garanto que estar segura para sempre.
       - O que ?
       Ilita mal pode pronunciar essas palavras, pois seus lbios tremiam.
       - Voc ter que se casar... mas comigo!
       O silncio que se seguiu foi tal que parecia que nenhum dos dois respirava.
       Ento Ilita disse, num sussurro quase inaudvel,
       - Disse que quer. que... eu me case... com voc?
       - Amo-a, Ilita! Mesmo antes de tudo isto acontecer, queria pedir que fosse minha esposa, mas tendo esse seu segredo, achei que ainda era cedo para pedi-la 
em casamento, voc no me aceitaria como marido. Eu sempre soube que a nica coisa que nos separava era esse segredo. Agora que sei quem voc , no h nada que 
impea nosso casamento. Mas devemos nos apressar, querida, antes que sua tia e o tal homem cheguem. 
       Sem poder evitar, Ilita deu um grito.
       - No podemos desobedecer a tia Sybil... Ela disse que me poria em um convento.
       - No vai fazer nada disso. O que ela quer  por as mos em sua fortuna. 
       No se preocupe com sua tia. Ela vai chegar aqui e encontr-la casada, tendo um marido para proteg-la.
       O Marqus viu que Ilita estava plida e segurou-a depressa, para que no casse.
       - Por favor... O que eu mais quero  ficar sempre ao seu lado...
       Pela primeira vez, o Marqus sorriu, e todo o seu rosto se iluminou.
       - Isso  tambm tudo o que mais quero, minha querida. Venha, tudo est preparado.
       - Quer dizer... assim como estou?
       O Marqus olhou para ela e susteve a respirao.
       - Direi mais tarde como voc est linda! Mas agora, vamos. No podemos perder tempo.
       Ele olhou para as flores que estavam sobre a mesa e seus olhos brilharam. 
       Ento pegou um ramo de orqudeas.
       - Ponha estas orqudeas nos cabelos, querida - disse ele.
       - Elas sero a sua grinalda. No temos tempo de procurar outra.
       Ilita aceitou a sugesto e prendeu as orqudeas nos cabelos, com grampos. 
       O Marqus escolheu alguns dos lrios e colocouos nos braos de Ilita.
       Eram lrios brancos, com estames amarelos, uma variedade muito rara, que o prprio Marqus trouxera de Burma para a Inglaterra.
       Ele olhou para Ilita, que estava linda, e teve mpetos de beij-la, mas disse apenas,
       - Amo-a demais! Quando se tornar minha esposa, demonstrarei o quanto a adoro!
       Segurando o brao de Ilita, ele a conduziu pelo longo corredor, e atravessaram o hall.
       Um coche j esperava por eles em frente aos degraus, O Marqus ajudou a subir, e o cavalario que estava segurando os cavalos correu para a parte de trs 
do coche.
       A igreja para onde o Marqus se dirigia a toda a velocidade ficava pouco alm dos portes do Castelo, do lado oposto da vila.
       Era uma igreja pequena, muito antiga, construda na poca da rainha Elizabeth, e permanecera inalterada atravs dos anos.
       Quase todos os membros j falecidos da famlia Lyss estavam enterrados ali. Na prpria igreja havia monumentos e placas lindamente esculpidos, em homenagem 
aos membros da famlia que haviam morrido em combate ou queles que haviam ocupado posies importantes junto ao governo.
       O Marqus deteve os cavalos e saltou sem demora, para ajudar Ilita a descer. Ambos j podiam ouvir a msica suave que o organista tocava dentro da igrejinha. 
Um ministro j esperava pelos noivos ao lado do altar.
       No havia ningum mais para testemunhar o casamento, exceto o organista. 
       Mas, ao ouvir a voz forte do Marqus e a sua prpria, suave, repetindo as palavras rituais do sacramento, Ilita sentiu que seus pais e a me do Marqus estavam 
ali presentes, vendo os filhos se casarem.
       Os pais de Ilita diziam que haviam ouvido suas preces e que a filha no precisava mais temer, eles a amavam demais e a protegeriam.
       "Estou muito, muito feliz!", pensou Ilita.
       Quando os dois se deram as mos para receber a bno do ministro, ela sentiu seu esprito elevar-se num hino de agradecimento por ter encontrado no apenas 
a segurana pela qual sempre ansiara, mas tambm o amor que vinha de Deus.
       Depois de assinarem a certido de casamento, eles caminharam pela nave da igreja ao som triunfal da Marcha Nupcial de Haendel e saram da igreja, onde foram 
saudados pelo sol que brilhava esplendoroso.
       S depois que ambos estavam de volta ao coche, Ilita notou que o Marqus se relaxava. Ela teve certeza de que ele temia no poder salv-la da tia e do homem 
que queria sua fortuna.
       Agora no havia mais pressa, e o Marqus dirigiu o coche calmamente, passando sob os grandes carvalhos. O sol radioso que se refletia nas janelas do Castelo 
era um augrio da felicidade que os esperava.
       -  verdade...  mesmo verdade que sou sua esposa? - murmurou Ilita.
       - Voc  toda minha, querida - disse o Marqus com voz profunda.
       Ela deu um suspiro de felicidade, depois disse,
       - Suponha que no tivesse ido a Londres e que eles chegassem de surpresa ao Castelo, sem sabermos de nada.
       - Nem pense nisso, meu amor. Agora est salva, e ningum jamais a magoar. Juro que matarei quem a atormentar ou a deixar to assustada como estava quando 
a conheci.
       Eles chegaram ao Castelo, onde o tapete vermelho j estava estendido sobre os degraus para receb-los.
       Quando os recm casados entraram no hall, Glover os esperava.
       - Voc  o empregado mais antigo deste Castelo, Glover, e quero que seja o primeiro a saber que nos casamos. Eu e minha esposa esperamos que nos deseje toda 
a felicidade que possa existir!
       Por um momento Glover ficou boquiaberto, mas controlou-se depressa e disse,
       -  uma tima notcia! Excelente notcia, na verdade, Milorde! Em nome de todos os empregados deste Castelo e no meu, desejamos que ambos vivam felizes por 
muitos e muitos anos!
       Depois disso o que se ouviu foram exclamaes de alegria por todo o Castelo, assim que souberam do casamento dos dois.
       - Por que no me disseram que iam se casar? - perguntou a Marquesa  - Sabem muito bem que eu adoraria assistir  cerimnia!
       Com calma o Marqus explicou quem era Illita realmente, o modo como sua tia havia agido com ela no passado e quais os planos que tinha para sua tutelada.
       - Mas isso  monstruoso! - exclamou a Marquesa - Nunca ouvi uma coisa dessas. Para dizer a verdade, jamais gostei de Sybil Darrington. Ela sempre teve cimes 
de mim. Fiquei at muito surpresa com a carta amvel que me escreveu sugerindo que eu contratasse uma pessoa para ler para mim.
       - S posso agradecer por ter me aceitado - disse Illita.
       - Suponha que tivesse me recusado. Alguma coisa horrvel iria me acontecer!
       Ela estremeceu ao lembrar-se disso. 
       O Marqus sabia que ela pensava que poderia, quela hora, estar presa em um convento.
        Nesse instante, Glover apareceu  porta, anunciando,
       - A Condessa de Darrington est l embaixo, Milorde, acompanhada do Senhor Paul Perceval. Eles disseram que desejavam ver a Senhora Marquesa, mas quando lhes 
informei que Vossa Senhoria estava no Castelo, quiseram falar primeiro com Milorde. 
       Ao ouvir as palavras de Glover, Illita empalideceu e segurou a mo do Marqus, apertando-a, como se precisasse agarrar-se a ele para ficar segura.
       - Pode deixar que resolvo tudo - disse ele com firmeza - Fique aqui e no se aborrea. No h nada que eles possam fazer, a no ser voltar para Londres e 
 para l que os mandarei, to rpido quanto for possvel!
       O modo implacvel como ele falou revelava quanto se ressentia pelo modo como a Condessa havia tratado Illita. E ela sabia que, quando o Marqus ficava zangado, 
tornava-se assustador, e no queria estar no lugar da tia naquele momento.
       Felizmente, no precisava mais ter medo de nada, uma vez que era a Marquesa de Lyss.
       - No h com que se preocupar - disse a Marquesa, ao notar a apreenso no rosto de lIita - Vamos conversar um pouco. Quero contar que logo me mudarei para 
a Manso. Sei que voc e Terill no iro querer-me aqui agora.
       - No diga isso. No a estamos mandando embora - disse Ilita depressa.
       - Eu  que quero me mudar. Gerald e eu vamos nos casar, e quero esquecer toda a infelicidade destes ltimos nove meses e o tempo em que no fui realmente 
feliz ao lado do pai de Terill, embora ele sempre tivesse sido muito bondoso comigo.
       - Havia muita diferena de idade entre vocs dois - disse Ilita suavemente.
       - Isso mesmo. Foi um grande erro me deixar influenciar pelo deslumbramento e o charme de tornar-me Marquesa, em vez de esperar encontrar algum que eu amasse 
verdadeiramente, e que me amasse tambm.
       Ela sorriu e continuou,
       - O destino  estranho e tem suas surpresas. Se eu me casasse com Gerald quando era jovem, seramos pobres, e talvez no fssemos felizes. Agora tenho bastante 
dinheiro, poderemos viver confortavelmente e fazer tudo o que desejarmos.
       - Tem razo. O destino  estranho, realmente. Se eu no voltasse  Inglaterra por no ter mais dinheiro para pagar pelos meus estudos no convento, tia Sybil 
no me teria mandado trabalhar aqui, para ficar livre de mim.
       -  tudo to complexo e entrelaado, os caminhos so to tortuosos, que chega a ser excitante! - disse a Marquesa - E agora, minha querida criana, o mais 
importante  cuidarmos de nosso enxoval.
       Ilita deu uma risada espontnea e cristalina, que mais parecia o gorjeio dos pssaros que voavam l fora.
       - Nem havia pensado nisso! Tudo o que tenho para usar so dois vestidos feitos com a musselina que seria empregada na confeco de cortinas. Acredito que 
Terill no me achar atraente neles.
       - No creio que isso o preocupe, querida. Ah! Mas vou mandar algum para Londres imediatamente! Quero que v aos melhores costureiros da Bond Street e lhes 
pea que nos mandem amanh os mais lindos vestidos que j estejam prontos, e que nos mandem tambm diversos modelos para escolhermos e mandarmos fazer muitos outros!
       Aquilo pareceu to fascinante que Ilita esqueceu por um momento o que se passava l embaixo.
       Quando Terill voltou para a sala da Marquesa, Ilita correu para ele e o abraou, temendo que alguma coisa no tivesse dado certo.
       - Tudo est bem, minha querida - ele disse com ternura.
       - Os dois j partiram, e duvido que voc veja sua tia novamente.
       - Ela ficou muito zangada?
       - Na verdade, ficou atordoada e atnita ao saber que voc estava casada. Tentou vociferar e criar caso, alegando que era sua tutora e que nosso casamento 
era ilegal. Mas acabou se convencendo de que no havia nada a fazer. Se nos criasse problemas, iria ser pior para ela, pois seria motivo do escrnio de toda a sociedade 
londrina.
       Os olhos do Marqus brilharam quando ele disse, em tom brincalho,
       - Sua tia no  boba, e no ignora que voc fez um casamento de grande repercusso social.
       Ilita encostou-se no ombro dele.
       - Para mim no tem a menor importncia... sua posio social.
       - Sei muito bem disso, querida. Agora vou lev-la daqui. H um visitante esperando impaciente para ocupar nosso lugar.
       No havia necessidade de dizer que era Lorde Grantham quem esperava para ver a Marquesa. Ele entrou na sala quando Ilita e o Marqus saram.
       Chegando ao andar trreo, ambos foram instintivamente para a sala oriental.
       Durante a ausncia deles as flores haviam sido arrumadas em vasos, e a luz do sol que entrava pela janela parecia iluminar de maneira especial os quadros 
do deserto.
       O Marqus ps o brao ao redor dos ombros de Ilita, e ambos ficaram admirando os quadros.
       - Um dia a levarei para a frica, e poderemos rever as cataratas juntos - disse o Marqus  - Mas primeiro precisamos ficar algum tempo no Castelo, para que 
eu possa supervisionar tudo o que est sendo feito. Depois, querida, passaremos algum tempo em Devonshire, aonde eu costumava ir quando era menino. Tenho l uma 
casa de campo,  um lugar muito sossegado, e poderemos nos conhecer melhor.
       - Sinto que o conheo... h milhares de anos - murmurou Ilita  - Ou at h mais tempo que isso.
       -  exatamente o que sinto por voc. Portanto, precisamos compensar todo esse tempo que ficamos sem nos encontrar.
       Ele a abraou com fora, depois prosseguiu,
       - Suponha que nunca nos encontrssemos. Se isso acontecesse, eu jamais ficaria sabendo que o amor  uma experincia to maravilhosa que no tenho palavras 
para descrev-la.
       Ilita ergueu a cabea e olhou para o marido.
       - Amo voc! Amo-o tanto! Sei que meu pai sempre me guiou para voc... Era nosso destino, nosso carma, que nos encontrssemos. Nada poderia impedir que acabssemos 
nos encontrando.
       O Marqus no respondeu.
       Ele a beijou apaixonadamente, com loucura e sofreguido, como se tivesse medo de vir a perd-la e para assegurar que ela era agora sua para sempre.
       
       Bem mais tarde, nessa noite, deitada na enorme cama de entalhes dourados e dossel, onde todas as Marquesas de Lyss haviam comeado a vida de casada, Ilita 
aconchegou-se ao marido e disse, num murmrio,
       - Agora sei que este Castelo ... encantado.
       - Ele perdeu o encanto por algum tempo, mas voc, minha adorada, com seu poder mgico especial, recuperou-o. Desde criana acreditei que este Castelo era 
envolto por um encanto especial, e todas as geraes que aqui viveram felizes antes de ns acreditaram nisso tambm.
       - Devemos tornar todos os que vivem aqui muito felizes. Quando vi a Senhora Lynton chorando de alegria porque nos casamos, e Glover parecendo at mais jovem 
por estar to contente,  percebi que a felicidade imensa que sentimos se irradia para todos os que nos cercam.
       -  isso mesmo, querida. Juntos poderemos ajudar os que vivem no s aqui, mas nas diversas propriedades que possuo em diferentes lugares da Inglaterra. Vamos 
estimular os jovens a prosperarem. Usaremos mtodos modernos para explorar nossos recursos ao mximo, assim, poderemos oferecer empregos a muito mais pessoas.
       - Tambm gostaria de fazer isso. Por favor... deixe-me ajud-lo. Voc  to inteligente, to sbio! Quero que me ensine muita coisa sobre este meu pas, pois 
nunca vivi aqui.
       - Voc sabe muito sobre o ser humano, e isso  o importante. No importa a nacionalidade das pessoas, ou de que parte do mundo venham, todas elas querem ser 
felizes, e  felicidade que vamos proporcionar a todos.
       - isso  o que voc me proporcionou.
       Ele virou-se para poder ver o rosto de Ilita, iluminado pelas chamas mortias que ainda ardiam na lareira e pela luz plida das estrelas que brilhavam l 
fora, alm da janela.
       O Marqus havia deixado as cortinas abertas antes de ambos se deitarem, e Ilita exclamara,
       - Estou pensando no deserto! Voc sabe como o cu fica brilhante  noite e como as estrelas parecem bem maiores do que as vemos aqui.
       - Foram essas mesmas estrelas que nos atraram um para o outro. Mas, minha querida mulherzinha, voc  a minha estrela, a estrela que me guiar pelo resto 
de minha vida.
       - Adoro que pense assim, e que me diga isso. Meu nico medo  que eu possa desapont-lo, ou fracassar.
       - Como pode dizer isso, se tem a sua intuio para gui-la?
       Foi essa intuio que a orientou ao afirmar que Esm voltaria a enxergar, quando ningum tinha esperanas disso.
       - Na primeira vez que o vi, fiquei muito amedrontada, e foi minha intuio que me disse para nada temer - pois voc era o homem mais maravilhoso do mundo!
       O Marqus sorriu. Depois disse,
       - Deve ter sido minha intuio que me fez saber que voc era uma mulher diferente de todas as que encontrei em minha vida. Eu no podia acreditar, minha adorada, 
que voc fosse real. Sim, foi a minha intuio que afastou as minhas dvidas, e logo tive certeza de que voc era uma jovem maravilhosa.
       Ilita corou e escondeu seu rosto no peito dele.
       - Voc no vai me achar uma pessoa enfadonha?
       - Voc  para mim a coisa mais maravilhosa que me aconteceu. Por eu nunca ter conhecido jovens, jamais pensei que alguma delas pudesse ser to perfeita sob 
todos os aspectos. Voc  to adorvel, to excitante, que me faz vibrar de prazer. S receio, meu anjo, que a magoe ou que a amedronte.
       - Nunca me magoar. E por favor, querido... do mesmo modo que vai me ensinar a cuidar de suas imensas propriedades, ensine-me a am-lo como deseja ser amado. 
com nosso amor faremos deste Castelo um reino encantado, um reino de contos de fadas, onde todos possam viver felizes, como estamos felizes neste momento.
       - Sempre ser assim enquanto voc viver ao meu lado. Sei que continuar sendo assim quando tivermos nossos filhos.
       O Marqus notou que Ilita estremeceu, por ser jovem, inocente, tmida e nunca ter ouvido um homem falar daquele jeito com ela. Ele exultava por ter encontrado 
uma mulher to especial, nica, diferente de todas as outras.
       - Adoro voc! - disse o Marqus  - S tenho medo de que se canse de me ouvir repetir isso tantas vezes.
       -  s o que quero ouvir, meu amor. Cada vez que diz isso, sinto que essas palavras passam por mim como se fossem os raios de uma estrela, fazendo-me estremecer.
       O modo apaixonado como ela falou fez com que se acendesse no Marqus a chama da paixo.
       Ele olhou para ela, seus cabelos soltos estavam esparramados sobre o travesseiro, seus olhos grandes, pousados nele, eheios de amor, os lbios, trmulos de 
excitao.
       Ento ele a beijou, beijou-a com intensidade, demoradamente, incitando nela o desejo, fazendo com que os pequenos raios estrelares se tornassem brilhantes 
como o fogo do sol do meio dia. As mos de Terill acariciavam o corpo quente de Ilita, seus lbios, depois de beija-la demoradamente a boca, foram descendo pelo 
pescoo, para os seios, ao que ela respondia arfando de desejo, os lbios midos entreabertos.
       - Amo voc... oh, Terill... Eu o amo tanto! Por favor... quero que me ame... quero que me ame!
       Ilita no sabia se havia dito aquelas palavras ou se elas apenas existiam em seu corao.
       O Marqus a tornou mulher, transportando-a para o cu, onde encontraram o xtase e a glria do amor que triunfa sobre todas as dificuldades e que d a alegria
perfeita a todos os que o buscam.


Fim
